Pergunta de um aluno

Pergunta de um aluno

Qual a diferença entre colocar a mão direita ou a esquerda por cima? Questionou uma querida aluna ao fazer a aula de um outro professor.

Este assunto já foi abordado anteriormente no nosso blog, em relação à posição das pernas, a resposta é semelhante. 

Há escolas que defendem, que a posição das mãos é diferente para homens e para mulheres. Estas escolas justificam esta recomendação, referindo a polaridade do corpo subtil.

Segundo estas escolas, no caso das mulheres, o dorso da mão esquerda deve repousar sobre a palma da mão direita. No caso dos homens a posição das mãos é inversa, a mão direita fica por cima da esquerda.

Também segundo estas escolas, o calcanhar negativo, deve ficar junto do períneo. O calcanhar de polaridade negativa para os homens seria o esquerdo e para as mulheres, o direito. Estas polaridades iriam, supostamente, influenciar toda a energia do corpo físico e subtil.

Outras escolas e tradições, referem que nas antigas escrituras hindus e nos grandes tratados sobre o yoga, nos Śāstra, não existem referências a posturas ou posição das mãos ou pés, unicamente para homens ou mulheres.

Mas, desconsiderando a questão do sexo, a forma como se colocam as mãos pode ter um efeito subtil sobre o praticante. Isto pode ser explicado pela simbologia de cada gesto e pelo seu efeito reflexologico sobre a mente. 

A ciência do prāna, o Swara yoga, também pode trazer alguma explicação para estas diferenças subtis.

Segundo o professor Pedro Kupfer "o universo inteiro é uma manifestação do prāna, que é a fonte criativa original. No plano cósmico, existem dois aspectos básicos do prāna. O primeiro é o aspecto não manifestado, chamado Purusha, ou Pura Consciência. O segundo é o aspecto da manifestação criativa, chamada Prakṛti, que é a própria força da natureza."

O prāna pode ser considerado muitas vezes, como um sinónimo da respiração, mas esta definição é muito limitadora. O prāna é muito mais que o ar que respiramos, é a energia da mente e mais profundamente, da própria consciência. É qualquer forma de energia que se manifeste no corpo físico, mental, emocional e energético. Por exemplo, o calor é uma manifestação do prāna. O Prāna é a força vital, a bio energia.

Esta energia é também absorvida através do ar, da respiração, e flui por uma rede de canais sutis e energéticos, as nāḍīs. As nāḍīs são então os canais subtis por onde flui o prāna.

A tradição menciona 72.000 nāḍīs no corpo subtil. Este número é simbólico, pois cada pessoa é única e possui um número diferente de veias, artérias e capilares, e o mesmo acontece com as nāḍīs. 

Estes canais não são visíveis, ou seja, se formos em busca de tais canais no corpo humano, não encontraremos nada. Eles pertencem ao corpo sutil e representam o caminho percorrido pela bioenergia. Tal como a eletricidade não pode ser observada, apenas a sua manifestação é perceptível, assim acontece com as nāḍīs e com o Prāna.

Mas, à medida que nos tornamos mais conscientes, podemos sentir esta energia e perceber como se move e a sua manifestação subtil. Isto explica também, os possíveis diferentes efeitos sentidos, quando se troca o cruzamento das pernas ou a posição das mãos. 

Das milhares de nāḍīs existentes, as três principais são īḍā, piṅgalā e sushumnā. Estas três nāḍīs originam-se no chakra da raiz ou Mūlādhāra chakra, que se situa na base da coluna.

  • A nāḍī piṅgalā é a nāḍī solar, inicia-se no mūlādhāra chakra e sobe ao longo da coluna vertebral até chegar à narina direita. Transporta o prāna de polaridade positiva. Símbolo do sol, do calor e da atividade, está relacionada com a força ascendente e com o lado masculino, com a força física e psíquica e com os processos de absorção do corpo físico e energético. Coordena o lado direito do corpo mas ativa o lado esquerdo do cérebro responsável pela lógica e pelo pensamento analítico. A respiração pela nāḍī solar produz calor, atividade, ação e energia e ativa o pensamento lógico.
  • A nāḍī īḍā, é a nāḍī lunar, inicia-se no mūlādhāra chakra e sobe ao longo da coluna vertebral até chegar à narina esquerda. Transporta o prāna de polaridade negativa, apāna. Tem como função controlar todos os processos de eliminação ou excreção no corpo humano, tanto ao nível físico como ao nível mental e energético. Simbolizando a lua, está mais ligada a atividades introspectivas e criativas, ao lado feminino. Coordena o lado esquerdo do corpo, mas ativa o lado direito do cérebro. A respiração pela nāḍī lunar é refrescante e calmante, induz ao recolhimento dos sentidos e desenvolve a intuição e a criatividade.

Logo:

  • Quando a nossa narina esquerda está dominante, ou seja, quando o ar flui melhor por esta narina, em princípio, o lado direito do cérebro (que corresponde às atividades de introspecção, criatividade e intuição) está mais ativo. 
  • Quando, pelo contrário, temos a nossa narina direita dominante, significa que o lado esquerdo do cérebro, está mais ativo. A lógica e o pensamento racional sobrepõem-se.
  • Quando há desequilíbrios na nāḍī īḍā, sentimos frio, baixa capacidade mental, tristeza ou depressão, a digestão pesada e demorada, etc.
  • Quando, pelo contrário, há desequilíbrios na nāḍī piṅgalā, sentimos calor, temperamento explosivo, muito apetite, alergias, etc.

īḍā e piṅgalā representam a dualidade da existência. Essa dualidade é tradicionalmente personificada na cultura hindu por Śiva e Śakti, o principio masculino e o feminino. É com base nesta dualidade que a vida é criada.

No entanto, sushumnā, a nāḍī que se situa no centro da coluna, não tem atributos, polaridade, ou qualidades, é como um espaço vazio. 

Uma vez que o prāna entra em sushumnā, a energia flui de forma retilínea, conduzindo ao despertar da kuṇḍalinī, a supraconsciência.

A kuṇḍalinī, é descrita simbolicamente como uma serpente de fogo, que permanece adormecida e enroscada na base da coluna vertebral, no chakra da raiz ou mūlādhāra chakra, e simboliza esse despertar da consciência. 

É interessante perceber que o canal central (sushumnā), que representa o caminho de despertar da consciência (kuṇḍalinī) é um canal sem atributos, sem polaridades. Ou seja, num estado de pura consciência não há opostos, não há homem e mulher, dia ou noite, quente ou frio, só há energia manifestada.

Recordando que o objetivo o yoga é conduzir o praticante ao autoconhecimento e que o autoconhecimento conduz a mokṣa, liberdade. A liberdade resulta da não identificação com o corpo, com o ego, com a individualidade. Dito isto tudo se parece encaixar. Biologicamente somos todos diferentes, mas energeticamente seremos? 

Já percebemos que homens e mulheres podem realizar todos os gestos, mas então, que se pretende quando se coloca a mão direita por cima ou a esquerda?

Os gestos feitos com as mãos chamam-se mudrās, são gestos simbólicos, ou seja, são representações alusivas a estados interiores, a intenções, a sentimentos e atuam através de associações neurológicas. Segundo o Professor Pedro Kupfer estes gestos" influenciam a forma como percebemos a energia vital"...."Eles aludem a verdades eternas, valores, ideias, conceitos ou estados emocionais que são diferentes para cada um de nós, pois, a partir de suas múltiplas interpretações, falam diretamente ao eu profundo."

Todos os gestos universais atuam da mesma forma. Basta pensar no que se sente ao unir as mãos em oração, ou ao cerrar os punhos com força.

O gesto de colocar a palma direita sobre a esquerda chama-se Bhairavamudrā, e o seu oposto é o Bhairavimudrā.

  • Bhairava é um dos nomes de Śiva, talvez por esta razão haja escolas que chamam a este gesto Śiva mudrā. Bhairava é o nome de Śiva que exalta o seu aspeto terrível. Com esta sua versão terrível, Śiva pretende aniquilar o ego e a ignorância. 
  • Bhairavimudrā representa śakti. a Deusa e esposa de Śiva. Ambos os gestos, são normalmente usados na meditação.

As mãos acabam por representar as duas forças, masculina e feminina, Śiva e śakti e também as duas nāḍīs, īḍā, piṅgalā, solar e lunar. representam igualmente o aspecto não manifestado, chamado Purusha, a pura consciência e Prakṛti, que é a própria natureza.

Ao colocar a mão direita por cima, pretende-se dar destaque às qualidades associadas à nāḍī Piṅgalā, a força, a energia, a atentividade. Ao colocar a mão esquerda por cima, é a nāḍī īḍā e as suas qualidades que se pretende exaltar, a introspeção, o recolhimento, etc.

O mesmo acontece ao realizar o jñānamudrā, o gesto do conhecimento, que se faz unindo os dedos indicador e polegar. Há escolas que recomendam que se voltem as palmas das mãos para cima durante o dia e para baixo à noite, porém, ambos os gestos podem ser feitos de noite ou de dia.

Se voltarmos as palmas das mãos para cima o gesto induz a uma maior receptividade, a própria posição das mãos requer mais esforço. Ao voltar as mãos para baixo, a atitude interior é de recolhimento e introspeção. Se percebermos bem, as mãos descansam mais nesta posição o que permite um mergulho mais profundo nas técnicas de meditação. Todavia, todos somos diferentes e o que é bom para um, pode não ser o mais indicado para outro. É necessário adaptar.

Ao escutar um ensinamento, uma recomendação, questione e medite sobre. Adapte.

Leia também:

https://bhava-e-yoga.blogspot.com/2022/02/pergunta-de-um-aluno.html

Boas práticas, com consciência! 💚

Esta informação foi inspirada nos ensinamentos do Professor Pedro Kupfer, Professores João Paulo Dias, Ricardo Gil, DeRose e pesquisas pessoais.💙









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