O Mūlādhāra chakra, o chakra da raiz

O Mūlādhāra chakra, o chakra da raiz

Mūlā significa raiz e ādhāra, morada, base ou suporte. 

O mūlādhāra chakra localiza-se no plexo sacro, na base da coluna e por esta razão é chamado de chakra da raiz. 

O seu kshetram, ou ponto de ativação superficial, está localizado entre o períneo e o cóccix ou o osso pélvico.

A sua grafia em sânscrito é मूलाधार

Este chakra é representado por uma lótus de quatro pétalas, de cor vermelha ou rosa, onde estão escritas, a dourado, as sílabas वं vaṃ , शं śaṃ , षं ṣaṃ e सं saṃ, que segundo algumas interpretações podem representar os quatro elementos: terra, ar, água e fogo ou quatro vrittis ou ainda a mente (manas); intelecto (buddhi), consciência ( chitta) e ego (ahamkara)

Dentro do círculo existe um quadrado de cor açafrão que representa o elemento terra, pṛthvī, estado mais condensado da matéria e associado à parte sólida do corpo, como ossos, músculos e intestino grosso (por onde passa a substância sólida).

Dentro do quadrado existe um triângulo avermelhado invertido, símbolo da yoni, órgão sexual feminino e representante da fertilidade. 

Por fim, dentro do triângulo encontra-se um lingam, svāyambhu liṅgam, órgão sexual masculino, que simboliza a criação e brilha como ouro fundido. 

À sua volta enroscada, está uma serpente que dá três voltas e meia e tem a cabeça voltada para cima e representa a Kuṇḍalinī, energia adormecida na base da coluna e que está associada ao desenvolvimento da consciência plena. Segundo o professor Pedro Kupfer, não é uma casualidade essa região ser chamada sacra, que significa sagrada em latim. Da boca aberta da serpente nascem as três principais nāḍīs: īḍā, piṅgailā e suṣumṇā.

A sílaba do mantra semente é लं Laṁ  e está representada no centro do símbolo. 

"Por debaixo do triângulo está representado um elefante, o elefante Airavāta, deus elefante e pai de todos os elefantes. Ele é a montaria de Indra, deus do céu, e de cada uma das oito deidades que presidem os oito pontos cardeais. O elefante tem a cor cinza clara ou branca e tem sete trombas, (com as sete cores do arco-íris. Ele é um dos dezesseis elefantes que segundo o hinduísmo sustentam a Terra"... ( este elefante é símbolo de estabilidade, força primordial, suporte da existência e memória ancestral, sustentação da consciência, aquilo que sustenta o corpo sem colapsar. Símbolo do corpo, instinto de sobrevivência e ligação à terra, a matéria). As 7 trombas não surgem em todas as tradições e representam, 7 chakras básicos, 7 planos de consciência., ou mais recentemente as cores do arco íris.

"Do lado esquerdo, está Balabrahmā, o Brahmā criança. Com quatro cabeças e quatro braços, segura uma flor de lótus com a mão esquerda elevada e os vedas com a outra mão esquerda. No braço inferior direito ele tem o amṛtakūmbhaka, o pote do licor da imortalidade. Com a outra mão ele faz abhāya, o gesto de dissipar o medo. É uma criança radiante e a sua pele é da cor do trigo. Ele veste um dhoti amarelo. Um pano verde cobre seus ombros. Olha em todas as direções ao mesmo tempo".... Representa o potencial latente, o inicio da individualidade, a arquitetura da manifestação, o começo da criação, o estado germinal do universo.

2Do outro lado encontra-se Dakiṇī, a śakti. Ela tem uma cabeça e quatro braços. A sua pele é cor de rosa. Veste um sāri vermelho. Seus olhos são vermelhos. Com a mão superior esquerda segura um tridente. Na outra mão esquerda tem uma caveira. Na mão inferior direita, um escudo. Na outra, uma espada. "...Representa, a inteligência, o despertar da energia ígnea, a transmutação do instinto, do medo, o despertar do corpo como um símbolo sagrado.

"O regente do cakra é Gaṇeśa. A sua pele é alaranjada. Veste um dhoti amarelo. Um pano de seda verde cobre seus ombros. Ele tem quatro braços. Com a mão superior esquerda sustenta uma flor de lótus. Na outra mão esquerda tem uma bandeja de doces. A mão inferior direita se eleva em abhāyamudrā, o gesto de dissipar o medo. Com a outra segura um machado."  (citações a preto- Pedro Kupfer)

A imagem do triângulo invertido (yoni) com um liṅgaṁ no seu interior indica a presença de um "nó" ou granthi em cada um destes chakras. 
Estes nós seriam como obstáculos ao desenvolvimento da consciência. Se formos pensar na correspondência entre a localização destes “nós” e as tendências latentes em cada centro, poderíamos identificar no mūlādhāracakra, os laços da materialidade e a sobrevivência.


  • Localização: No plexo sacro, na base da coluna.
  • Cor: Açafrão (cor da terra). Em sistemas de representação mais modernos associado à cor vermelha. Cor intensa, vibrante e estimulante, ligada aos instintos.
  • Prāna associado: Apāna, energia descendente e associada ao ato de excreção/ purificação no corpo físico e subtil.
  • Função principal: Instinto de sobrevivência. Responsável pelo zelo pela sobrevivência e pelas necessidades básicas: comer, dormir, etc. É também responsável pelos instintos no geral e pela procriação, enraizamento a tudo o que nos sustenta, desde o corpo físico até ao planeta terra.
  • Glândula associada: Este chakra está associado às glândulas supra renais, glândulas endócrinas situadas acima dos rins e responsáveis pela libertação de hormonas, como resposta ao stress, tais como o cortisol e a adrenalina. Estas glândulas estão associadas aos mecanismos de luta e fuga e à sobrevivência.
  • Bīja mantra: Laṁ

Ouça o bīja mantra Laṁ. Carregue no link seguinte:

  • Órgão dos sentidos: Nariz- Sentido do olfato, permite perceber o elemento terra. Órgão muito ligado aos instintos.
  • Ação muscular: Mūlabandha, é a contração ou fecho da raiz, ou seja, a contração dos esfíncteres do ânus e da uretra. Carregue no link seguinte para ver mais informação sobre o Mūlabandha:
https://yoga-sadhana-pt.blogspot.com/2022/03/mulabandha.html
  • Vṛttis desejáveis: instinto de sobrevivência, vitalidade, solidez, enraizamento, autoconfiança, materialidade, boa comunicação, relação sadia com a matéria, capacidade de transcender limites. 
  • Vṛttis indesejáveis: inércia, possessividade, medo, apego, rigidez, cobiça, avidez, bloqueio na comunicação, tendência de ser manipulado, ciúme, etc
  • Para desenvolver os Vṛttis desejáveis : Em primeiro lugar a meditação sobre os Vṛttis. suprir todas as necessidades básicas. Desintoxicar o corpo. Pratique Yoga e meditação, permaneça em contacto com a natureza e o elemento terra: ande descalço, faça jardinagem, plante, mexa na terra.  Mantenha os pês na terra também sobre a forma metafórica. Para crescer em consciência é necessário em primeiro lugar ter os pés bem assentes na terra. 
  • Divindade associada - Indra, o deus do céu no Hinduísmo, ou Gaṇeśa, considerado "o destruidor dos obstáculos”, conhecido como o deus da sabedoria, da fortuna e do despertar da Kuṇḍalinī. Shiva na forma de Ashupati senhor das feras, do mundo animal.
  • Posturas de Yoga (āsana):- Tadāsana (a postura da montanha); Padmāsana (Lótus) e praticamente todas as posturas sentadas; Balāsana (a postura da criança); Malāsana; Sethubandāsana; navāsana; vṛkṣāsana (a postura da árvore); Upavishta konāsana; baddha konāsana, dandāsana; etc
  • Outras técnicas de yoga para auxiliar no foco sobre o mūlādhāra chakra : Nasāgradṛiṣṭi, a fixação do olhar na ponta do nariz; mūlabandha, a contração dos esfíncteres do ânus e da uretra; āksāh prāṇāyāma, kaki prāṇāyāma, chakra prāṇāyāma, tantrika prāṇāyāma, entre outros.
  • Nota musical: Dó
  • Dia da Semana: Segunda-feira

Para saber mais/recordar a informação sobre os chakras carregue no seguinte link: 



Outras informações e curiosidades:

O Mūlādhāra chakra é considerado a sede do inconsciente. Sendo o primeiro chakra representa o primeiro passo do yogi na senda do autoconhecimento. Também é interessante pensar que neste chakra reside adormecida a energia ígnea, a Kuṇḍalinī,, que simboliza o despertar da consciência. Sendo este um chakra mais básico, associado ao elemento terra, podemos concluir que é necessário ter os pés bem assentes na terra para desenvolver a nossa espiritualidade. 

Apāna- "localizado na região do baixo ventre e coccígea, é o ar vital de movimento descendente, que governa os processos de excreção e expulsão, aliviando o organismo de elementos desnecessários. Associado à exalação." (“Respiração total”, técnicas do Swásthya Yôga- Rosângela de Castro)

Bījamantra-  É um som “semente”, também chamado matrikā, som " mãe". Associado aos diferentes aspectos da manifestação de Īśvara , Deus criador, e aos sete  principais chakra*s. São sons dos quais nascem todos os outros mantras e não tem tradução. Através da sua vibração produzem efeitos poderosos no corpo físico e energético. 

O sacro é um osso de formato triangular que fica na base da coluna vertebral, próximo às nádegas. Em crianças, ele é composto por 5 vértebras, que se fundem completamente aos 26 anos de idade. O sacro está ligado à bacia através de outro osso, ílio, e toda essa região é chamada de articulação sacroilíaca.

vṛttis, São as instabilidades da mente, da atividade psíquica, que se formam de acordo com as tendências subconscientes dos indivíduos, vāsanās e dão origem aos pensamentos e desejos. É a força que origina os pensamentos e desejos.

Experimente estar atento/consciente: Numa situação de medo geralmente contraímos  os esfíncteres do anus e uretra como sinal reflexo. É curioso que a expressão “ Com o rabo entre as pernas”, signifique que se está com medo. Esta expressão surgiu da observação dos cachorros perante uma situação de medo, mas não deixa de ser curioso uma vez que o primeiro chakra está associado a esta emoção e ao instinto de luta e fuga.

Pode ser interessante conhecer um pouco mais sobre os chakra*s mas, lembre-se de que são apenas símbolos, representações simbólicas do sagrado no nosso corpo, do macro e do microcosmo e uma forma para se praticar meditação, um mapa simbólico para praticar a meditação. 

Não existem terapias dos chakras, nem alinhamento dos chakras.

Sabia que o sistema de cores (cores do arco-íris ligadas aos sete chakras principais) é uma criação moderna? 

Os chakras surgiram mencionados no Ṣaṭ-Cakra-Nirūpaṇa (षट्चक्रनिरूपण) é um dos textos tântricos clássicos mais citados, sobre os chakras, escritos por Pūrṇānanda Yati (séc. XVI) e descreve de forma simbólica e muito diferente da atual, os centros energéticos do corpo.

No Ocidente, esse manuscrito tornou-se muito famoso por ter sido traduzido e comentado por um juiz britânico e estudioso do Tantra, Sir John Woodroffe (também conhecido pelo pseudônimo Arthur Avalon). Este escreveu em 1918, no livro The Serpent Power (O Poder da Serpente). É desta tradução que derivam a maior parte das noções modernas sobre os chakras e a energia e foi a influencia para ocultistas, psicólogos e esotéricos.

Mais tarde, Charles Webster Leadbeater, ocultista Britânico e antigo padre Anglicano, afirmava-se como clarividente e dizia ver as cores dos chakras. Escreveu um livro "The Chakras" 1927. Aqui os chakras eram mencionados como Vórtices energéticos e órgãos no corpo etérico e tinham cores fixas. 

Mais tarde, Annie Besant, feminista e líder teosófica, ativista politica, ajudou a popularizar essa teoria através da Teosofia.

Muito recentemente, Shirley Maclaine, uma atriz famosa de Hollywood, adepta do mundo esotérico difundiu ainda mais estas ideias e difundiu-a para o publico em massa, ao escrever o seu livro "Out on a Limb"- 1983 . 

Leia o artigo do Professor Pedro Kupfer " Existe alinhamento dos chakras no yoga?":

Leia o artigo do Professor Pedro Kupfer "Patañjali, o Tântrico: os Chakras no Yogasūtra", onde é mencionado a “linguagem crepuscular” (metafórica) que  refere os Chakras no Yogasūtra.

Se quiser percorrer com verdade o caminho do yoga, não interprete nada à letra, pesquise, duvide, estude e valorize o mais importante. Não existe nada tão importante nesta senda do yoga quanto a prática, e de todas as práticas, a meditação e a prática dos valores, yamas e niyamas, bem como o autoestudo, o caminho para o autoconhecimento.

Boas práticas, com consciência! 💚

Esta informação foi inspirada nos apontamentos facultados pelos meus Professores Pedro Kupfer, João Paulo Dias, Ricardo Gil e pesquisas pessoais 


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