Como trazer o yoga para a vida

 Como trazer o yoga para a vida

Há umas semanas atrás entreguei aos meus alunos um pequeno questionário que preencheram quando iniciaram a prática de yoga. O objetivo era que analisassem se algo mudou desde que praticam yoga. Se os objetivos mudaram, se os benefícios pretendidos foram alcançados, se já existem outros propósitos ou outras formas de ver o yoga, etc.

Apercebi-me que para alguns alunos a redução do stress ainda continua a ser um objetivo. É natural que assim o seja. Normalmente entramos stressados na aula de yoga e saímos mais tranquilos, mas essa tranquilidade dura pouco tempo. Como fazê-la durar por mais tempo? Como trazer o yoga para fora da sala de prática?

O yoga é uma prática que visa o autoconhecimento e a expansão da consciência. Visa atingir mokṣa, a liberdade.

Mas que liberdade é esta?

É a libertação dos condicionamentos, a transcendência do ego, do senso individual, da identificação com o corpo físico, com os pensamentos. E é também, ao fim ao cabo, o reconhecimento de que já somos livres, que sempre o fomos.

Mas estes conceitos, repetidos e vividos por tantos e tantos yogis e mestres ao longo dos séculos, nem sempre são fáceis de entender e menos de aplicar no dia a dia. Como não se identificar com o corpo? E com o pensamento? Como não esquecer quem somos?

O yoga é uma prática para a vida e, como tantos mestres o repetem, não existem atalhos para este caminho na direção de mokṣa. Quando estamos prontos esta consciência surge, tal como uma criança dá os primeiros passos quando os músculos ganham força e quando desenvolvem o equilíbrio e a coordenação necessária. A prática e o tempo são muito importantes neste processo.

A prática é o sādhana diário. E o sādhana é a prática com um propósito. 

Não se trata apenas de estudar, de executar āsanas, prāṇāyāmas ou bandhas, mudrās, etc. Não se trata apenas de ter uma rotina diária, mas de colocar toda a atenção nessa rotina, nessa prática, e também colocar um propósito, um objetivo. O objetivo podem ser os yamas ou Niyamas, a intenção de  nos libertarmos dos nossos condicionamentos, de estarmos presentes, de vigiar o tempo todo, etc.

Um sādhana sem esta intenção e atenção irá certamente produzir efeitos físicos e emocionais como o relaxamento muscular, um sono mais regenerador, a melhora da força e do equilíbrio, o ganho da capacidade respiratória, alguma tranquilidade, etc, mas esses efeitos não terão muita expressão se não forem carregados com a força da intenção e são sempre ganhos pequenos comparados com o objetivo do yoga, mokṣa.

Aquietarmo-nos e meditar, todos os dias, até várias vezes ao dia, é vital. Por mais que pareça que esta prática não está a gerar frutos. Só assim nos conhecemos gradualmente, só assim enfrentamos tudo o que somos (ou julgamos ser) e só assim percebemos os condicionamentos que se agigantaram em nós. Só desta forma, com o tempo, nos vamos libertando da ignorância.

A liberdade é o fruto do autoconhecimento.

Este é o primeiro passo para trazer a prática de yoga para o dia a dia. Meditando tornamo-nos gradualmente mais conscientes.

O yoga dá-nos ferramentas que não devemos ignorar e que podemos/devemos usar no dia a dia e fora do tapete de prática: Um prāṇāyāma que podemos utilizar num momento de tensão, quando queremos dormir ou aquecer o corpo; Um mantra que nos ajuda a obter foco e a limpar a mente; Uma mudrā que nos conecta com um estado de gratidão ou de serenidade; Um āsana que tem um efeito tranquilizador ou energético, etc. Lembre-se que a sua prática de yoga é como um pequeno ensaio para a vida. Traga para a vida o que aprende na sala de prática. Mas é com a meditação, aliada a consciência de si mesmo que irá atingir a libertação.

O ser humano vê-se como um ser fadado, condenado ao sofrimento e só o autoconhecimento o libertará dessa visão fatalista. No entanto, ser consciente não significa ignorar o sofrimento, ser positivo o tempo todo. Isso é falsidade. O sofrimento não deve ser ignorado, deve antes ser observado, questionado. Só enfrentando o sofrimento poderemos munir-nos das ferramentas para o ultrapassar.

Para lá chegar, gradualmente, deveremos preparar e purificar a nossa mente, através da prática da meditação, do autoconhecimento. Questionando-nos, praticando, estudando, caminhando e meditando.

Boas práticas, com consciência!💙

Esta reflexão foi inspirada nos ensinamentos dos Professores João Paulo Dias, Mestre DeRose, Ricardo Gil, em informação online do professor Pedro Kupfer e pesquisas pessoais.


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