Pergunta de um aluno - Porque não entoamos mantras em Português?

 Pergunta de um aluno - Porque não entoamos mantras em Português?

Na passada semana, uma querida aluna perguntou-me porque não vocalizávamos os mantras em Português, e o porquê de usar o sânscrito?💙

Nesse mesmo dia, duas outras alunas brincaram ao ver o nosso mantra escrito no quadro, dizendo que em Português daria menos trabalho a escrever e todos entenderiam! 😊

Então, resolvi escrever sobre o assunto para esclarecer sobre o porquê do uso do sânscrito.

Começando pela definição e objetivo do mantra:

A palavra mantra é uma palavra em sânscrito e significa “instrumento para a mente",

man significa mente ou pensamento e tra, instrumento.

  • São vários os objetivos ao entoar um mantra. Como o próprio nome indica, é uma forma de concentrar, disciplinar, serenar e limpar a mente. Colocando toda a nossa atenção na vocalizado e sons do mantra conseguimos estabilizar a mente. Podemos entoar um mantra mentalmente, murmurando-o ou repetindo em voz alta, mas todas estas formas têm o mesmo fim, concentrar, focar a mente. Esta é uma preciosa ferramenta para o autoconhecimento, o objetivo do yoga.
  • O mantra pode também trazer consigo um precioso ensinamento, que convida à reflexão, este é um outro objetivo do mantra, fazer refletir. Por exemplo:

ॐ पूर्णमदः पूर्णमिदंपूर्णात्पुर्णमुदच्यते।

पूर्णस्य पूर्णमादाय पूर्णमेवावशिष्यते॥

ॐ शान्तिः शान्तिः शान्तिः ॥ हरिः ॐ ॥

oṁ pūrṇamadaḥ pūrṇamidaṁ pūrṇat pūrṇamudacyate |

pūrṇasya pūrṇamādāya pūrṇamevāvaśiṣyate ||

oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ || hariḥ oṁ ||

Tradução:

Oṁ. Isto (o que é manifestado) é Plenitude,

aquilo (o não é manifestado) é Plenitude.

A Plenitude que surge da Plenitude é realmente plena.

Tirando-se a Plenitude da Plenitude

somente Plenitude permanece.

Que haja paz, paz, paz. Hariḥ Oṁ. ( tradução - Professor Pedro Kupfer).

Este mantra trás consigo uma importante mensagem e pode levar a grandes reflexões e até debates. É outro objetivo do mantra.


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Agora a pergunta desta querida aluna:

Porquê entoar o mantra em sânscrito e não em Português?

  • Entoar o mantra na sua língua original, o sânscrito, é uma forma de respeito por uma tradição milenar tão bonita.
Os mantras são vocalizados em sânscrito, língua considerada sagrada, língua do yoga, dos sábios da Índia antiga, língua dos vedas (a base do extenso sistema de escrituras sagradas do Hinduísmo).

O sânscrito é ainda considerado, por muitos estudiosos, como a mãe de todas as línguas do mundo. Por todas estas razões merece todo o respeito pela parte de quem o estuda e principalmente de quem pratica yoga.

Para algumas tradições pode fazer sentido uma mudança, por exemplo: A tradição de ser o pai da noiva a levá-la até ao altar, ou a tradição cruel das touradas.
As tradições foram estabelecidas pela sociedade logo, podem ser mantidas ou modificadas pela mesma sociedade que as criou.

Por outro lado, há tradições que faz mais sentido preservar por uma questão de respeito pela sua antiguidade, principalmente quando essas tradições chegaram até nós intocadas e carregam uma importante mensagem e ensinamentos profundos, tal como acontece com as artes marciais, o yoga e também os mantras entoados em Sânscrito.

Talvez não faça sentido mudar os ingredientes de um doce conventual; a saudação ao Mestre (Sensei) no karaté no inicio e fim da prática, ou os passos do folclore português que representa uma identidade cultural.

  • A vibração de cada som é única. O som original de cada mantra deve ser preservado. Estes são sons, muito perfeitos e subtis e produzem efeitos na mente, corpo físico e energético de quem os escuta ou vocaliza.
Experimente simplesmente fechar os olhos e dizer em voz alta o som das vogais, A E I O e U e perceba como vibram de forma diferente no nosso corpo.

Com os mantras, vocalizados na sua língua original, o sânscrito, acontece o mesmo. Estes sons foram criados com objetivos específicos, para desencadear determinados estados mentais e energéticos no praticante.

Como refere o professor Pedro Kupfer, na tradição hindu, os mantras são chamados de Śruti, ou seja, uma revelação. São sons que foram intuídos pelos sábios ou ṛṣis, em estado de meditação profunda, há centenas e centenas de séculos. Estes sons são considerados sagrados, são como reveladores de grandes verdades e têm um efeito no nosso corpo, mente e energia, por isso devem ser preservados, na sua forma original.
  • A força do arquétipo e do inconsciente coletivo
Existe ainda o efeito da força do mantra, que ao ser recitado em sânscrito ao longo de centenas e centenas de séculos, por milhares e milhares de pessoas, ganha poder pois fica gravado no inconsciente coletivo.

Quando, por exemplo, ao longo de séculos e séculos se repete o mantra Oṁ namaḥ Śivāya, (pañcākṣara- mantra das cinco sílabas, oriundo do Ṛgveda - uma coletânea de hinos do hinduísmo), o mantra ganha força. É como um arquétipo, como uma fórmula secreta gravada no inconsciente coletivo. Por esta razão não deve ser alterada.

Experimente dizer em Português e perceba a diferença:

- Oṁ namaḥ Śivāya

- Oṁ inclino-me perante Śiva.

Ouça agora o mantra:

  • Ao entoar o mantra (traduzindo-o numa outra língua), algo se perde e a mensagem pode ser deturpada
Há escolas que defendem que mais importante que saber o significado do mantra é a entrega ao mantra, é repeti-lo com sentimento e devoção. Outras escolas explicam o significado de cada mantra antes de recitá-lo para que este possa ressoar no coração de quem o repete.

Identifico-me mais com esta segunda posição e nas minhas aulas explico sempre a mensagem transmitida por cada mantra.

Mas uma coisa é explicar essa mensagem que o mantra transmite e outra é vocaliza-lo na nossa língua.

O mantra transporta com ele verdades profundas e quando o traduzimos literalmente, por exemplo para português, algo se perde. Perde-se a profundidade, a verdade nele contida.

É como traduzir a palavra saudade para outra língua. A profundidade da palavra saudade só se encontra no português. "I miss you" não é o mesmo que sentir saudade.
Por exemplo, o mantra Oṁ namaḥ Śivāya, significa literalmente, Oṁ inclino-me perante Śiva.

Em Português a mensagem perde-se, pois na realidade o que este mantra pretende transmitir é algo muito mais profundo:
Inclino-me (reverencio) o sagrado, que Śiva representa em mim, o poder da transformação, da mudança, da sabedoria. O espelho de Śiva em mim, a força, o autoconhecimento, etc, etc.

Imagine traduzir do japonês o nome da técnica - Gedan Barai ( do karaté).
Ao dizer Gedan Barai, todos os praticantes de karaté sabem o que significa, mas se formos traduzir pode ficar: " defesa baixa"; " defesa com o braço"; "defesa do pontapé", etc. A mensagem não é a mesma e a confusão pode instalar-se.

Se ao longo dos séculos, os mantras fossem traduzidos do sânscrito para as diferentes línguas de vários países do mundo, como acha que chegariam até nós? Será que a mensagem original chegaria até nós intocada ou deturpada?

  • Há também mantras sem significado, sendo apenas considerados sons sagrados, como os Bījamantra. Estes mantras são sons semente, sons que estão na origem de todos os outros sons, como o Laṁ, Vaṁ, Raṁ, Yaṁ. Haṁ, Oṁ. Estes mantras não têm tradução.

Por todas essas razões devemos entoar os mantras em sânscrito.


Curiosidades sobre o Sânscrito:
  • A escrita do Sânscrito chama-se Devanagari, ou Nāgarī ( नागरी ) e é grafada da esquerda para a direita. É composta por 47 caracteres primários, incluindo 14 vogais e 33 consoantes. Significa: “escrita dos deuses” e a palavra sânscrito, saṃskṛtam, significa : “culto”, “refinado” ou “sofisticado”.~
  • Os chakras, são representados sob a forma de flores de lotus. Cada flor de lotus, tem um numero de pétalas que representam os fonemas do alfabeto sânscrito. Desta forma, cada fonema estimula uma pétala de um chakra, produzindo efeitos vibratórios diferentes. "A soma das pétalas dos seis primeiros cakras corresponde às letras do alfabeto sânscrito, chamadas mātrikās, ou mãezinhas. Essas mãezinhas são as matrizes sutis de todos os sons. O alfabeto é chamado “grinalda de letras”, varṇamālā, sugerindo o mais alto propósito dado à linguagem humana pelos sábios védicos: honrar e expressar apropriadamente a realidade transcendental." Professor Pedro Kupfer
  • Sri Aurobindo, filosofo, poeta e yogi Indiano, comentou que o sânscrito é “o instrumento literário mais magnífico, perfeito e maravilhosamente suficiente que a mente humana já desenvolveu… ao mesmo tempo majestoso e doce e flexível, forte e claramente formado e pleno e vibrante e sutil…”.
  • Sir Monier Williams, acadêmico britânico e professor de Sânscrito na Universidade de Oxford , Inglaterra, disse: “A gramática de Panini é uma das obras literárias mais memoráveis que o mundo já viu, e nenhum outro país pode produzir qualquer sistema gramatical de algum modo comparável, quer pela originalidade, quer pela esquematização, quer pela sutileza de análise… Seus śāstras são um milagre perfeito de condensação”

Esta informação foi inspirada nos ensinamentos dos Professores Pedro Kupfer, João Paulo Dias e pesquisas pessoais. 

Boas práticas com consciência! 💙














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