Satya, a não mentira ou a verdade

 Satya, a não mentira ou a verdade 

Nesta primeira semana do mês de abril, como tema das nossas práticas de yoga, foquei-me no segundo yama de Patañjali, Satya, a não mentira ou a verdade.

É curioso pois este mês inicia-se precisamente com o dia das mentiras 😊

É importante perceber que na base de todo o código de ética do yoga está ahiṁsā, a não violência. Satya, a não mentira, também é um ato de não violência, de respeito pelo outro e por nós mesmos.

Satya consiste em praticar a verdade, ou seja, não se trata apenas de dizer a verdade, mas também de  manter a conformidade entre aquilo que pensamos, aquilo que  dizemos e o que praticamos. 

Se formos verdade iremos certamente espelhar a verdade.

Satya é um ato de respeito e consideração pelo outro, é também um ato de coragem quando se trata de olhar para dentro de nós mesmos.

Praticar Satya pode ser um tremendo desafio, há que encontrar um equilíbrio entre a verdade e ahiṁsā, a não violência. Se ao dizer a verdade infringirmos dor ao outro deveríamos repensar este valor. Procurar um compromisso entre a verdade e a não violência, pode ser um caminho mais ético e equilibrado. Antes de agir, de falar, poderemos parar e fazer um questionamento sincero e depois, escolher a forma como vamos transmitir a verdade.

Na vida, praticar Satya começa pela fidelidade a nós mesmos, pois sem sermos verdadeiros connosco nunca o seremos com o outro. Esta atitude requer uma atenção plena sobre os nossos pensamentos, emoções e ações. Requer também a aceitação de quem somos, com as nossas qualidades e defeitos. Assumir internamente os meus defeitos e aquilo que considero ser o meu lado mais sombrio é o primeiro passo para uma transformação interna. Não pretender ser como o outro, não copiar, não mudar a nossa personalidade em função do desejo de agradar o outro também é satya.

Não divulgar a mentira também é uma forma de ser verdadeiro. Ter cuidado, por exemplo, em verificar se a fonte daquilo que partilhamos com os outros, quer pessoalmente, quer nas redes sociais, é credível é uma forma de satya. 

No tapete de yoga, satya remete para a nossa observação interior. 

A proposta de auto observação que muitas vezes o professor nos sugere durante as práticas é um verdadeiro ato de aceitação da verdade. Tendo em consideração que estamos em constante mudança, satya requer uma observação constante dos sinais do corpo e sobretudo da respiração, pois não há nada tão verdadeiro que a nossa respiração natural. A observação da mente necessita de uma maior mestria, pois a própria mente é perita em enganar-nos, em passar rasteiras, é mestre na arte da ilusão.

Ser verdadeiro é ser humilde, aceitar as nossas "limitações", ser quem somos. Isto representa  auto observação e coragem. 

O professor, deve ser um exemplo de verdade para os alunos. Esta é uma batalha poderosa, travada entre o ego e a proposta do caminho do yoga. Ser verdadeiro no tapete de yoga é ser verdadeiro na vida! A verdade é libertação e libertação é um objetivo do yoga.


“Três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: O sol, a lua e a verdade.”

“A verdade está dentro de nós. Não surge das coisas externas, mesmo que assim acreditemos.” 

(Buddha)


Conheça um pouco sobre os yama*s e niyama*s:

Patañjali foi um sábio  místico da antiga Índia, codificador do Yoga Clássico, ao qual foi atribuída a autoria da obra Yoga Sútra, um texto redigido em linguagem condensada, sob a forma de sutras. Há algumas incoerências sobre a data em que viveu Patañjali, mas julga-se que entre os sec. IV e II a.c.

Reveja aqui a lenda do nascimento de Patañjali :

https://bhava-e-yoga.blogspot.com/2022/01/a-lenda-do-nascimento-de-patanjali.html

Patañjali criou o Aṣṭāṅgayoga, mais conhecido como Rāja Yoga, o yoga das oito etapas.

Estas etapas, deveriam ser praticadas por qualquer aspirante ou estudioso de yoga e são elas:

  • Yama*s- As cinco proscrições ou abstenções;
  • Niyama*s- As cinco prescrições ou disciplinas;
  • Āsanas-  Posturas psicofísicas;
  • Prāṇāyāmas - Exercícios de expansão e controle do prāṇā ou bioenergia;
  • Pratyāhāra- A abstração dos sentidos;
  • Dhāraṇā-  Concentração;
  • Dhyāna- Meditação;
  • Samādhi- Estado de supraconsciência, que leva à libertação, mokṣa.

Os yama*s, as cinco proscrições ou abstenções e os niyama*s, as prescrições ou disciplinas constituem o código de ética do yoga.

Os Yama*s são cinco:

  • Ahiṁsā , a não violência;
  • Satya, a não mentira ou a verdade;
  • Asteya, não roubar;
  • Brahmacharya, não desvirtualização da sexualidade;
  • Aparigrāha, o não apego.

Os Niyama*s São cinco também:

  • Saucan, a purificação;
  • Santoṣa, o contentamento;
  • Tapas, a auto superação ou o esforço sobre si mesmo;
  • Svādhyāya, o auto estudo, através do estudo das escrituras; 
  • Īśvaraprānidhāna, a consagração a Īśvara, princípio divino e ilimitado.

Esta informação foi inspirada nos ensinamentos dos meus Professores Pedro Kupfer, João Paulo Dias e pesquisas pessoais💙





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