Pergunta de um aluno

Após o desafio semanal que lancei para que os alunos mais antigos experimentassem fazer todas as manhãs em jejum, durante sete dias, o bhastrikā prāṇāyāma seguido de uma retenção com os pulmões cheios. surgiu uma duvida: Qual a diferença em realizar este prāṇāyāma seguido da retenção com os pulmões cheios ou vazios?
Antes de responder deixo os links para o desfio semanal e também encontrará a explicação do exercício:
https://bhava-e-yoga.blogspot.com/2023/04/desafio-semanal.html
https://bhava-e-yoga.blogspot.com/2022/09/bhastrika-pranayama-respiracao-do-fole.html
A respiração do yoga tem quatro fases:
- Pūraka- A inspiração. Tem uma força ativa
- Rechaka- A expiração. Tem uma força passiva, de entrega
- Antara kūṁbhaka- A retenção com os pulmões cheios
- Baya kūṁbhaka ou shūnyaka- A retenção com os pulmões vazios.
O desafio desta semana era que realizassem o bhastrikā prāṇāyāma, a respiração do fole, seguida de uma retenção com ar nos pulmões, Antara kūṁbhaka.
Após realizar o bhastrikā prāṇāyāma recomenda-se sempre uma retenção. Essa retenção pode ser com ar e sem ar nos pulmões e pode ou deve ser acompanhada pelo jalāṇḍhāra bandha (a compressão do queixo contra o peito) e/ou pelo mūla e o uḍḍīyana bandha (a contração do pavimento pélvico e do abdomen, realizando o bandha traya).
Estas variações usam-se consoante o objetivo do praticante.
- O bhastrikā prāṇāyāma é uma respiração energizante que vai aumentar o calor corporal. Basta apenas um ciclo de bhastrikā para nos apercebermos do calor gerado. Se esta respiração for seguida de uma retenção com ar nos pulmões o calor gerado será potencializado.
- Se pelo contrário, for associada ao bhastrikā uma retenção sem ar, Baya kūṁbhaka, o efeito de calor é amenizado.
E para que servem estas retenções, para além de aumentarem ou neutralizarem o calor gerado?
Segundo o professor Pedro Kupfer, aumentando o calor gerado estimula-se o elemento Agni ( fogo), mas também prithivi, a terra e āpas, a água.
Já uma expiração prolongada seguida de uma retenção sem ar estimula os elementos vāyu, o ar e akasha, o éter. Desta forma geram-se efeitos distintos sobre os doshas ( os humores, ou as manifestações físicas dos cinco elementos no nosso corpo).
Esta técnica, ao ativar o fogo interno, Agni, vai gerar equilíbrio e purificação sobre os três doshas, Vata, Pitta e Kapha. Contudo, ativar o fogo interno trás mais benefícios para um Kapha que para um Vata e Pitta. Estes dois últimos podem necessitar de adaptações.
Se em alguma fase da vida, o excesso de Agni (fogo), não for benéfico para um Pitta, que já tem o seu elemento fogo muito ativo, pode haver necessidade que combater o efeito do bhastrikā com outro prāṇāyāma, como o shítalí ou o shítalí prāṇāyāma. Carregue no link seguinte:
Neste caso, pode também usar-se a retenção sem ar após o bhastrikā prāṇāyāma.
Segundo o Professor Pedro Kupfer, para um Vata, o elemento fogo normalmente é benéfico, mas se este for trabalhado em excesso pode potencializar o elemento ar, deixando o Vata demasiado aéreo, disperso e ansioso.
A observação e o autoconhecimento de cada praticante irão ter um papel muito importante neste aspeto de seleção do melhor prāṇāyāma ou retenção a ser utilizado.
Para isso, nada como praticar várias abordagens e várias técnicas, experimentar e observar o efeito de todos os prāṇāyāmas, claro, com moderação e bom senso.
Ouça o seu corpo, observe sinais de cansaço, suor em excesso, batimentos cardíacos acelerados, tonturas e sintomas como impaciência ou irritação. Nestes casos abrande ou pare. Se a sensação for energizante e agradável, continue.
Outros fatores podem influenciar a escolha da retenção a fazer após este exercício, por exemplo, num local, ou numa estação do ano onde o clima é demasiado quente, pode ser melhor não ativar tanto o elemento fogo. Já nas regiões de clima frio e húmido este prāṇāyāma pode ser bastante útil.
Observe...O bhastrikā prāṇāyāma realizado antes da prática de āsana, pode ajudar a eliminar o estado tamásico, de inércia, e também a aumentar o calor interno preparando o corpo para a prática e protegendo-o de lesões. Antes da meditação pode ajudar a combater o sono e colocar a mente num estado de maior concentração e clareza. Antes de dormir, pelo contrário pode impedir um sono fácil e regenerador. Durante a digestão é prejudicial. Informe-se, observe e adapte! O yoga é autoconhecimento e também autossuficiência!!!
Segundo algumas escrituras, como o Haṭha Yoga Pradípikā, II, 60-67[2], o bhastrikā prāṇāyāma, seguido da retenção com ar, proporciona o ativar da energia ígnea, a kuṇḍalinī e purifica as nāḍīs, canais por onde flui o prāṇā, a energia vital. Segundo esta escritura este prāṇāyāma deve ser praticado com afinco, pois faz com que o prāṇā atravesse os três nós ou granthis*, que estão ao longo de Sushumna nāḍī.
No Gheraṇḍa saṃhitā, um manual do Haṭha Yoga, se "o sábio pratique este bhastrikā kūṁbhaka três vezes. Ele nunca sofrerá de qualquer doença e será sempre saudável.” V, 75-77:
A prática e a observação dos efeitos da prática são a melhor forma de autoconhecimento. Contudo, nunca devemos esquecer de que todos somos seres únicos e o que funciona para uns, ou numa fase da vida, pode não funcionar para outros ou noutra fase da vida.
Boas práticas, com consciência! 💚
* Esses três granthis, ou nós, são o brahmāgranthi, situado no mūlādhāra cakra; o viṣṇugranthi situado no anāhata cakra e o rudragranthi, situado no ājña cakra.
Estes nós situado ao longo do canal central que coincide com a coluna vertebral, representam os obstáculos que a energia tem de ultrapassar para que ocorra um maior estado de autoconhecimento e consciência.
Leia mais sobre Kuṇḍalinī, nāḍīs, cakras, granthis, Samādhi, carregue no link seguinte:
Esta informação foi inspirada nos ensinamentos dos Professor João Paulo Dias, Ricardo Gil, Mestre DeRose e em informação online do professor Pedro Kupfer e pesquisas pessoais. 💙
Esta explicação não substitui os ensinamentos transmitido pessoalmente pelo seu professor de yoga. Peça ajuda ao seu professor antes de executar qualquer técnica.
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