Ansiedade - Tema da aula de meditação de 10 de Fevereiro de 2024

 Ansiedade - Tema da aula de meditação de 10 de Fevereiro de 2024

Na passada semana, ao organizar um dossier com as fichas dos meus alunos, verifiquei que praticamente todos haviam procurado o yoga como forma de combater a ansiedade.
A ansiedade é sem dúvida, um estado psíquico e emocional que reflete o estilo de vida atual, mas sempre existiu, sempre existirá e faz parte da natureza humana.

Uma das definições para ansiedade que se encontram no dicionário:
Condição emocional de sofrimento, definida pela expectativa de que algo inesperado ou perigoso aconteça e diante do qual o indivíduo se acha indefeso.

A palavra "ansiedade" tem origem no latim anxietas, que significa “angústia"; anxius “perturbado", "pouco à vontade”; e do verbo anguere, “apertar", "sufocar”.

A ansiedade é um estado psíquico de apreensão, medo, sofrimento, provocado pela antecipação de um acontecimento ou situação. E pode refletir-se sob a forma de palpitações, suores frios, tonturas, desmaios, sensação de perda de controle, ataques de pânico, fobias, perturbações obsessivo compulsivas, psicoses, etc

Quantas vezes já ouvimos que“ a depressão é o resultado de pensarmos muito no passado e a ansiedade o resultado de pensarmos muito no futuro. A ansiedade é sofrer por antecipação”

Segundo o professor Pedro Kupfer, um dos professores de yoga mais conceituados em todo o mundo, depressão e ansiedade são estados opostos embora se possam manifestar juntos ”Desde a visão védica, uma emoção ou um pensamento que nos leve à agitação ou à ansiedade são considerados rajásicos, enquanto que pensamentos paralisantes como aqueles que conduzem ao estado de depressão são considerados tamásicos. As palavras rajas e tamas significam em sânscrito ação e imobilidade, respectivamente.”

O professor Pedro Kupfer continua ainda referindo que “Se a ansiedade é a dificuldade para lidar com

o excesso de aprêmios no cotidiano e a depressão é a falta mais absoluta de horizontes,

estímulos ou inspiração para agir. Assim, se quisermos ficar distantes desses dois extremos, devemos

encontrar o caminho do meio. Isso é chamado sattva…um estado de harmonia, equilíbrio.”


Mas como se atinge esse estado de equilíbrio num mundo aparentemente tão desequilibrado?


Esta é uma questão profunda que requer alguma reflexão. O yoga responde a esta pergunta e tem ferramentas que ajudam a lidar com as nossas emoções e estados mentais. Algumas destas ferramentas podem atuar de imediato, outras dependem do tempo, da prática, do autoconhecimento e da atenção sobre nós mesmos.


Somos ansiosos em relação a tanta coisa, por vezes até em relação ao próprio yoga.

Esperamos que a prática de yoga nos dê tranquilidade, paz e equilíbrio e se essa tranquilidade não vem de imediato, ou se vem, mas desaparece, mal passamos pela porta da sala de prática, sentimos frustração e ansiedade. 

Muitas das vezes é a expectativa, aquilo que fantasiamos, que nos leva a sentir essa sensação de frustração.

O sonho e a fantasia são necessários e fazem parte da condição humana. Não são os nossos desejos só por si, que nos fazem sofrer, mas a identificação com eles, e o poder que lhes atribuímos. 


Como o yoga nos ajuda neste processo?

  • O yoga, em primeiro lugar, propõe uma auto observação constante. Não só uma observação das nossas sensações físicas, como das nossas emoções e pensamentos. O yoga é uma prática de autoconhecimento que não começa nem termina sobre o tapete, em sala de aula. Quanto mais e melhor nos conhecemos, mais ferramentas temos para lidar com as adversidades da vida. 
  • O yoga ensina  que temos uma mente, mas não somos a mente. A mente  pode e deve ser usada para nosso crescimento pessoal, para o nosso autoconhecimento, mas normalmente deixamos que a própria mente nos use, nos domine. Segundo Patañjali, um sábio da antiga Índia, autor dos yoga sutra, e o sistematizador do Aṣṭāṅgayoga:  yogaścittavṛttinirodhaḥ , ou seja, o yoga é a cessação da identificação com os conteúdos da mente. Isto significa ter uma mente mais contemplativa. Numa fase inicial, a não identificação com os conteúdos da mente pode parecer um desafio impossível de realizar, mas com o tempo e a prática do yoga vamos aprimorando essa capacidade. O yoga dá-nos ferramentas para tornar a nossa mente gradualmente mais contemplativa, a meditação e os Prāṇāyāma (exercícios respiratórios e de expansão do Prāṇa, a energia vital), são dois dos mais poderosos. Com estas técnicas é criado um distanciamento em relação aos nossos pensamentos, eles perdem força, e dessa forma a ansiedade também perde força.
  • O yoga propõe-nos uma atitude de desapego, Vairāgya. Quando praticamos o desapego a mente perde a identificação com os objetos, com os resultados das nossas ações, com as nossas expectativas, relações, etc. Viver com desapego não significa viver com indiferença ou frieza, mas antes ter uma atitude de renuncia e desprendimento em relação a tudo o que antes dominava a nossa mente. Isto traz-nos liberdade, Mokṣa. Quantas vezes afirmamos " O meu país", " A minha mulher", " O meu trabalho", mas somos obrigados a ir viver para outro continente, a nossa mulher troca-nos pelo vizinho, dez anos mais novo e o nosso patrão, sem qualquer dó ou piedade nos dispensa. Que fazer? O yoga propõe-nos um olhar de distanciamento. Se podemos fazer algo quanto aquilo que nos incomoda, fazemos. Se nada podemos fazer, aceitamos. Não com resignação, mas com sabedoria. Existe uma diferença! Na verdade, nada do que chamamos de nosso é realmente nosso, nem a memória, nem a saúde, nem a própria vida, logo deveremos investir todos os nossos esforços naquilo que permanece. O que permanece é a nossa consciência, a nossa verdadeira essência.
  •  O yoga diz-nos que somos consciência, que a nossa verdadeira essência é a verdade e a felicidade, a plenitude ou ananda. Logo, não precisamos, e é mesmo uma perca de tempo, procurar essa felicidade no mundo exterior. O yoga é união com a nossa verdadeira essência. Essa união começa com o reconhecimento de que já somos plenitude, que nada nos falta, que não adianta procurar fora o que já somos dentro. Como nos ensina a Bhagavadgītā, uma antiga escritura hindu, de referência para os yogis. da compreensão do que verdadeiramente somos nasce a libertação. A libertação da tristeza, de todos os tipos de sofrimento e da ignorância. Somos saccidānanda, a verdade, a consciência e a plenitude.
  • O yoga propõe-nos  que mantenhamos uma atitude equânime, perante qualquer pensamento, emoção ou sensação. Mantendo a consciência sobre o que realmente somos. A  consciência é a  testemunha, sakshi. Segundo o Professor Pedro Kupfer " Se a vida fosse uma peça de teatro, sakshi seria ao mesmo tempo o ator e o espectador, aquele que tudo de tudo participa, tudo vê, mas com nada se envolve, nada julga, pois conhece a transitoriedade das coisas. Em poucas palavras, sakshi é a capacidade de manter a equanimidade em todas as circunstâncias. É ter presente que tudo passa, e ficar ciente disso 24 horas por dia."
Alguns truques para viver melhor com a ansiedade:
  • Assumir que tenho ansiedade. Este reconhecimento é o primeiro passo para retira força  e poder à ansiedade.
  • Reconhecer que a ansiedade é um processo natural do meu corpo e que é um estado essencial para a sobrevivência. Desdramatizar a nossa visão em relação à ansiedade é essencial para lidar com ela de forma mais saudável. 
  • Reconhecer que somos seres completos, que não dependemos de nada exterior a nós para obter a felicidade.
  • Aceitar que não controlamos nada. À primeira vista este pensamento pode parecer assustador, mas na verdade é muito libertador perceber que não controlamos e não temos de controlar nada. A Natureza é sábia, e se tivéssemos de controlar tudo, teríamos nascido com essa capacidade.
  • Observar a nossa ansiedade e canalizá-la para sermos pessoas mais fortes, mais capazes e para o autoconhecimento. A ansiedade e só uma forma que a natureza nos deu de nos protegermos e nós podemos aprender com ela e superar-nos através dela. 
  • Pedir ajuda especializada sempre que necessário. Não ter vergonha de assumir a nossa ansiedade e de pedir ajuda. Identificar quando estou a entrar num quadro de ansiedade patológica, quando a ansiedade passa a dominar o meu dia a dia e a interferir na nossa capacidade de agir, tomar decisões, estudar, trabalhar, ser saudável. Partilhar o que sentimos com amigos queridos ou familiares compreensivos também pode ajudar muito.
  • Dar tempo ao tempo, sem criar ansiedade com a vontade de vencer a ansiedade.
  • Conhecermo-nos e reconhecermos quando surge a ansiedade pode ser uma ferramenta para nos sentirmos mais preparados para a enfrentar. Identificar o que causa a ansiedade é muito importante.
  • Aceitar a vida como ela é, compreendendo as leis da natureza. Lutar para obter o que desejamos, mas sem nos apegarmos aos resultados das nossas ações. Manter um distanciamento saudável em relação ao que desejamos. Perceber que nem tudo o que não considero bom é mau.
  • Perceber que não estamos sozinhos. Todos sentem ansiedade. Uns já aprenderam a lidar melhor com ela, eu também posso aprender. Não é possível livrarmo-nos totalmente da ansiedade e este é um facto positivo.
  • Fazer exercício físico, apanhar sol, ficar em contacto com a natureza, fazer atividades prazerosas e com as quais se sente tranquilo/a.
  • Praticar exercícios de respiração consciente. Quem controla a respiração controla a mente e o oposto também é verdade. Os prāṇāyāmas do yoga são uma poderosa ferramenta para tranquilizar a mente.
  • Praticar yoga. Sou suspeita, mas considero este um aspecto muito importante para aprender a gerir a ansiedade.😁
Pratique o Samavṛtta Prāṇāyāma a respiração simétrica do yoga com o Professor Pedro Kupfer, carregue no link seguinte:
Esta respiração ajuda a acalmar os pensamentos e estabilizar a mente.

Sugestão: Sente-se no chão ou numa cadeira, mantenha as costas eretas. Medite sobre estes ensinamentos do yoga, depois faça o Samavṛtta Prāṇāyāma (vídeo acima) e por fim pouse as mãos em concha sobre o colo ou pés, ou apoie-as confortavelmente sobre os seus joelhos e concentre a sua atenção nas sensações do corpo, depois somente na sua respiração. Sempre que o pensamento o levar para longe da respiração, observe o seu pensamento com tranquilidade e compreensão, sem julgamentos e volte a focar a atenção na respiração. 

Se sente sintomas de depressão ou ansiedade procure ajuda especializada. Este documento pretende apenas dar sugestões e inspirar para uma vida mais saudável.

Esta publicação foi inspirada em pesquisas pessoais e principalmente nos ensinamentos e publicações do Professor Pedro Kupfer.




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