Meditação de sábado, dia 9 de Março - Nāda-yoga

Meditação de sábado, dia 9 de Março - Nāda-yoga

Os antigos ensinamentos hindus dizem que todo o universo emergiu de um som primordial, original, o som da criação. Esta visão diz-nos que tudo, incluindo o homem é composto de vibração na sua essência. Esta vibração denomina-se nāda.

O nāda primordial, vibra com uma frequência tão elevada que está longe da percepção da mente humana. Sabemos que, quando algo vibra e se move a uma velocidade inimaginavelmente elevada se torna imóvel.
Logo, o ponto mais elevado da vibração do som é a quietude, o silêncio. 

Nāda-yoga significa a união do eu através do som. É um antigo sistema filosófico hindu e uma ciência de transformação interior através do som. É também considerada uma forma de medicina.

Através da música clássica Indiana, dos  mantra e dos instrumentos musicais vibracionais como as taças tibetanas ou o som do vina ou da Shruti Box e harmónios podemos explorar os efeitos dessa vibração no corpo e mente. (ouça o som da vina, taças tibetanas e harmónios bem como da música clássica Indiana - link mais abaixo). 

Através da percepção dos sons internos podemos ir mais longe ainda. O nāda-yoga desafia-nos a estar atentos para percepcionar não só dos sons audíveis, mas também daqueles que não são perceptíveis pelos nossos ouvidos, os sons mais subtis. 

Consoante nos formos tornando conscientes desses sons mais facilmente nos conectamos com a consciência cósmica. Esta conexão com o som é como um mergulho no ser, é uma das técnicas mais poderosas para acalmar a mente e conquistar estados meditativos, a nossa verdadeira essência, o silêncio. 

No Nāda-yoga existem dois tipos de sons o Āhata e o Anāhata. O Āhata refere-se aos sons externos e o Anāhata refere-se aos sons internos.

  • O Āhata nāda

É um som produzido por uma causa externa e pela percussão, contacto de dois materiais um com o outro. Como o som produzido pelas palmas ou por um instrumento musical é um som percepcionado pelos órgãos dos sentidos.

Segundo o professor Pedro Kupfer: " A música clássica indiana é uma das formas mais eficientes para o aspirante iniciar-se no Nada Yoga, devido a sua natureza essencialmente sáttwica (pura, elevada). Ela é constituída de uma linda variedade de Ragas ou modos melódicos específicos, que produzem efeitos poderosos, tanto no indivíduo como no meio etéreo (Ákásha) que o cerca. Grandes santos yogis da Índia eram capazes de operar feitos extraordinários através da manipulação correta das ondas sonoras. Sri Tansen conseguia fazer chover através do raga Megh. Da mesma maneira, ele acendia lâmpadas de óleo cantando o raga Deepak, tão forte é o poder do som."

  • Anāhata ou nāda Brahman

Significa o som não produzido, o não som. Como refere o professor Pedro Kupfer " O nome refere-se ao som do coração, que não é provocado por percussão, nem pelo choque de duas coisas, como no caso da música, senão que é um som que surge do interior."

Há quem refira este som como o som cósmico do Bījamantra Oṁ , o pranava, som que deu origem à criação de todo o universo, o som do Big bang, do omnipresente que anima o universo e também ao som que a kuṇḍalinī Śaktī, a força ígnea, realiza, à medida que serpenteia e ascende através de suṣumṇā nāḍī, o canal principal que corresponde à coluna vertebral.

Anāhata deriva do prefixo A que significa não e de nāhata que significa som,  aquilo que está a bater, a produzir som. Logo Anāhata refere-se ao som não produzido.

Não sendo um som produzido pela fricção ou contacto de dois materiais é um som espontâneo, automático e considerado sagrado. Estes sons podem ser percebidos pelos yogis na experiência da meditação. Muitos consideram esta experiência um sinal do desenvolvimentos dos Siddhis, as perfeições. Estas perfeições surgem como resultado da purificação das nāḍīs, canais sutis por onde flui a energia vital ou prāna.

O Anāhata nāda pode ser percepcionado de diferentes formas segundo os yogis: O som semelhante ao som das ondas do mar; o som sagrado dos búzios; o som ensurdecedor de enormes sinos; um sibilo constante; O som de uma flauta; do ribombar de um tambor; do alaúde; e por fim, o som de um trovão.

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Esta prática, o nāda-yoga, surge referida no Haṭhapradīpikā, um clássico manual do Haṭha yoga do século XV. 

मुक्तासने स्थितो योगी मुद्रां सन्धाय शाम्भवीम्

शृणुयाद्दक्षिणे कर्णे नादमन्तास्थमेकधीः

muktāsane sthito yogī mudrāṁ sandhāya śāmbhavīm

śṛṇuyāddakṣiṇe karṇe nādamantāsthamekadhīḥ

O yogī, sentado em muktāsana, concentrado em śāmbhavī-mudrā, deverá ouvir atentamente o nāda que soa em seu ouvido direito. 

Haṭhapradīpikā, IV: 67

Segundo o Haṭhapradīpikā, as práticas de prāṇāyāma e kumbhaka são uma forma de preparar o corpo para a percepção do Anāhata nāda. Contendo o prāṇa, a bio energia, através de kumbhaka, aumenta-se o calor interno, desperta-se a kuṇḍalinī adormecida que ascende através de suṣumṇā nāḍī, penetrando os cakras e os granthis o yogi escuta este sibilo, este som subtil.

Também segundo o Haṭhapradīpikā e um artigo do Professor Pedro Kupfer "Ao fechar-se os ouvidos com ajuda dos polegares ouve-se o som do espaço que está no interior do coração, cuja aparência assume sete formas: (é como) o som de um rio, de um sino, de uma caixa de cobre, de uma roda de carruagem, o coaxar de uma rã, (como o som) da chuva ou da palavra em um lugar fechado. Após haver ultrapassado este som, que possui diferentes características, vai dissolver-se no Brahman não manifestado (Purusha), o Som supremo.’

Para praticar:

  • Escolha um local sossegado e procure não ser incomodado.

  • Sente-se em siddhāsana ou muktāsana, colocando o calcanhar esquerdo debaixo do períneo e o calcanhar direito à frente. Mantenhas as costas eretas e a cabeça no prolongamento da coluna. Procure que a postura seja firme mas confortável. Relaxe o corpo e mantenha a mente consciente, atenta.

  • Use o ṣaṇmukhī-mudrā (também conhecido como Devi ou yoni mudrā ou baddha-yoni-āsana): Este é o gesto das sete portas ou portões, pois fecha as sete portas de entrada dos órgãos sensoriais: Os dois ouvidos, os dois olhos, as duas narinas e a boca. Com os polegares fecha os ouvidos, com os indicadores fecha suavemente os olhos, com os dedos médios fecha as narinas, coloque os dedos anelares acima dos lábios e os mindinhos nos lábios.  Pode, em alternativa, fechar os ouvidos com os dedos indicadores, ou fechar os ouvidos com os dedos polegares colocando os restantes dedos sobre o crânio.

  • Deixando de exercer pressão com os dedos médios, inspire lenta e profundamente, usando a respiração completa. No final da inspiração, feche as narinas com os dedos médios. Retenha a respiração somente enquanto lhe for confortável. Quando necessitar de expirar, alivie a pressão dos dedos médios e exale. Isso é uma execução. Repita o procedimento enquanto lhe for confortável. Observe o bindu-visarga ou soma cakra. Na parte posterior alto da cabeça, onde os brâmanes hindus deixam um tufo de cabelo. A palavra bindu significa ponto ou gota e visarga significa verter gota por gota. O Bindu é o centro do nāda e é utilizado para concentração no som mental que se manifesta nesta área.

  • Depois, realize agora o Bhramāri prāṇāyāma. O prāṇāyāma do zumbido da abelha:

  1. Faça uma inspiração lenta, profunda, completa e nasal. Não faça retenções de ar.

  2. Tape os dois ouvidos em simultâneo usando os dedos indicadores ou use o Shanmukhí mudrā e expire novamente pelas narinas reproduzindo o som do zumbido de uma abelha. ( Se reproduzir um som semelhante a um murmúrio, o som mmmm, de forma baixa e contínua, obtém um som semelhante ao zumbido das abelhas). Expire de forma suave e prolongada.

  3. Tente não contrair a musculatura do rosto.

  4. Se após alguns ciclos respiratórios começar a sentir os braços cansados, pouse as mãos nos joelhos enquanto inspira e tape apenas os ouvidos durante a expiração.

  5. Repita o exercício por cerca de dez ciclos respiratórios completos. Com o tempo e a prática pode aumentar para vinte ciclos respiratórios.

  6. Centre a sua atenção na vibração criada pelo som no seu crânio, tentando não desviar a sua atenção desses sons ou vibrações.

Veja mais informação sobre o Bhramāri prāṇāyāma carregando no link que se encontra no final.

  • Pare agora o Bhramāri prāṇāyāma, o prāṇāyāma do zumbido da abelha. Dirija a atenção para os sons internos. Não procure interpretá-los de forma racional, apenas escute profundamente. Descubra os seus sons internos e permaneça com eles.

  • Ao identificar um som mais subtil, coloque toda a sua atenção nesse som. Irá perceber que, com o tempo, esse som se tornará mais claro.

  • Tente aprofundar essa percepção. Talvez venha a escutar outro som, ainda mais subtil, por detrás do primeiro e por aí adiante.

  • Para terminar dirija a atenção à sua respiração e lentamente vá trazendo a sua consciência para o exterior, tomando novamente noção de tudo o que é captado pelos órgãos dos sentidos.

  • Há quem sugira que concentre a sua atenção na parte posterior da cabeça ou mais do lado direito da sua cabeça, junto ao ouvido interno para conseguir mais facilmente resultados.

  • pratique com a atenção

  • Ao progredir no esforço de percepcionar este som, este acaba por abafar todos os sons externos

  • Existe outra técnica, o nāda-ānusandhāna-āsana juntamente com o bhrāmarī prāṇāyāma Sente-se em cócoras sobre uma manta enrolada ou um bolster. Apoie os pés no chão, os joelhos fletidos e elevados e os cotovelos apoiados sobre os joelhos. Feche os ouvidos com os dedos polegares e deixe os outros dedos sobre a cabeça. Execute agora o bhrāmarī-prāṇāyāma e perceba a vibração do som no crânio e no bindu-visarga.

A explicação deste exercício serve apenas para complementar a informação dada na sala de aula e auxiliar a memorização das técnicas. Não deve realizar qualquer técnica de yoga sem a orientação de um professor.


Esta informação foi inspirada nos ensinamentos dos Professores Pedro Kupfer, João Paulo Dias, Ricardo Gil e pesquisas pessoais. Também consultei o livro "Pranayama, a respiração sagrada do yoga" de Atul Mulji


Boas práticas, com consciência! 💙

Veja mais informação sobre o Bhramāri prāṇāyāma, carregue no link seguinte:

https://yoga-sadhana-pt.blogspot.com/search?q=Bhram%C4%81ri+pr%C4%81%E1%B9%87%C4%81y%C4%81ma

Ouça musica clássica hindu, carregue no link seguinte:

https://www.youtube.com/watch?v=MFCrZfc3nZc

Ouça aqui o som do vina, carregue no link seguinte:

https://www.youtube.com/watch?v=0dEx6dkBD_I

Ouça o som da vibração das taças tibetanas, carregue no link seguinte:

https://www.youtube.com/watch?v=L0frPqz0auk

Ouça o som da Shruti Box e harmónios, carregue no link seguinte:

https://sonorizarte.pt/collections/shruti-box-comprar-portugal/terapia-som-e-massagem-de-som


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