Excerto do livro “ Biografia do Silêncio” de Pablo D'ors, editora Quetzal

 Excerto do livro “ Biografia do Silêncio” de Pablo D'ors, editora Quetzal

Pablo D`ors nasceu em Madrid em 1963, é padre, filósofo, teólogo, escritor e crítico literário.

Foi professor universitário na Espanha e Argentina. Em 2014 assumiu o cargo de conselheiro cultural do conselho Pontifício para a cultura ( Pontificium Consilium de cultura), por nomeação expressa do papa Francisco. 

O livro “ Biografia do silêncio” é um relato escrito de forma simples mas profundamente bela, sobre a sua experiência com a meditação.

Este é um livro que usualmente está esgotado, é uma relíquia e uma verdadeira benção poder lê-lo. Foi-me sugerida a sua leitura por um dos meus professores de yoga.

 Aqui vos deixo um excerto, para aguçar a vontade de o procurar incansavelmente até que esteja disponível, como eu mesma o fiz.


“ Demorei quatro décadas a compreender que o homem começa a viver à medida que deixa de sonhar consigo mesmo. Que começamos a dar frutos quando deixamos de construir castelos no ar. Que tudo tem a sua raiz na realidade. Quanto mais uma pessoa se familiariza com a realidade, seja ela qual for, melhor. Tal como uma criança que está a aprender a andar de bicicleta consegue de facto andar nela quando mergulha totalmente nessa atividade e, pelo contrário, cai quando se põe a pensar se o está a fazer bem ou mal, assim nos acontece a nós, em qualquer atividade que realizamos. Assim que começamos a julgar os resultados, a magia da vida dissipa-se e estatelamo-nos; e isto independentemente do nosso voo ter sido alto ou baixo.

É essencialmente isto que a meditação ensina: a mergulhar no que estamos a fazer. “ Quando como, como; quando durmo, durmo”: dizem que foi assim que um grande mestre definiu o Zen. Com este espírito, não só gastamos menos energia no desenrolar de uma determinada atividade, como também saímos dele fortalecidos. O ser humano tem o potencial de se autocarregar na ação. Vou ilustrar o que quero dizer.

Como romancista que sou, soube desde muito novo quais as páginas dos meus livros que eram inspiradas e quais não o eram. No fundo, é muito fácil descobrir isso: as inspiradas são as que escrevi esquecendo-me de mim, mergulhando na escrita, entregue ao que surgisse; as menos inspiradas, pelo contrário, são as que foram mais trabalhadas, as que planifiquei e redigi de forma mais racional e menos intuitivamente.

Por isso, penso que para escrever, tal como para viver ou para amar, não devemos apertar, mas sim largar; não reter, mas sim desprender. a chave de quase tudo está na magnanimidade do desprendimento. O amor, a arte e a  meditação- pelo menos estas três coisas funcionam assim.

Quando eu digo que convém estarmos soltos e desprendidos, refiro-me à importância de confiarmos.

Quanto mais confiança um ser humano tiver noutro ser humano, melhor o poderá amar; quanto mais o criador se entregar à sua obra, mais esta lhe corresponderá. O amor-tal como a arte ou a meditação- é pura e simplesmente confiança. É prática, claro, porque a confiança também se exercita. 

A meditação é uma disciplina para aumentar a confiança. Uma pessoa senta-se, e o que fazer? Confia.

A meditação é uma prática da espera. Mas o que é que realmente se espera? Nada e tudo. Se se esperasse alguma coisa em concreto, essa espera não teria valor, pois estaria animada pelo desejo de uma coisa de que se tem falta. Pelo facto de ser não utilitária ou gratuita, essa espera ou confiança converte-se em algo nítido e genuinamente espiritual.

Todos temos a experiência de como as esperas costumam ser aborrecidas e incómodas. Como arte da espera que é, a meditação costuma ser muito aborrecida. Por isso é preciso ter uma grande fé para nos sentarmos em silêncio e quietude. Exatamente: é tudo uma questão de fé. Se tivermos fé para nos sentarmos a meditar, tanta mais fé teremos quanto mais nos sentarmos com este propósito. De modo que posso dizer que medito para ter fé na meditação. Ao estar aparentemente inativo quando estou sentado, compreendo melhor que o mundo não depende de mim, e que as coisas são como são apesar da minha intervenção. Perceber isto é muito saudável:coloca o ser humano numa posição mais humilde, descentra-o, oferece-lhe um espelho à sua medida."

Sejam muito felizes!!!



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