Excerto do livro “ o amigo do deserto” de Pablo d`ors

 Excerto do livro “ o amigo do deserto” de Pablo d`ors

Pablo D`ors nasceu em Madrid em 1963, é padre, filósofo, teólogo, escritor e crítico literário.

Foi professor universitário na Espanha e Argentina. Em 2014 assumiu o cargo de conselheiro cultural do conselho Pontifício para a cultura (Pontificium Consilium de cultura), por nomeação expressa do Papa Francisco.

Já anteriormente vos falei do livro “Biografia do silêncio”, um livro maravilhoso que me foi recomendado pelo meu professor Ricardo Gil. Este livro é um relato escrito de forma simples mas profundamente bela, sobre a sua experiência com a meditação.

Hoje deixo-vos um excerto de outro livro deste mesmo autor, "O Amigo do Deserto”, um livro publicado em 2014 sobre a experiência contemplativa, o poder do silêncio e também acerca das suas viagens físicas, ( mas não só) ao deserto.

Escrito de forma muito simples e poética, na minha interpretação é uma verdadeira metáfora para a experiência da meditação. Dando a sensação de que as viagens ao deserto, são na verdade as suas viagens interiores.

“ O que via da casinha que arrendei em Beni Abbès era pouco mais ou menos a paisagem que uma pessoa imagina para o dia depois de uma grande guerra: Um horizonte vazio, um espelho do nada em que consiste o homem, por mais que se esforce por parecer o contrário. Pois bem, eu sentia que daquele nada que me rodeava podia nascer algo de novo e autêntico. Que só daquele nada podia efetivamente nascer alguma coisa, e que - Fosse o que fosse-  valia a pena ter conhecido um nada tão físico como aquele que ali se me oferecia. Porque o emocionante era isso: que o nada, esse conceito, encontrava aí, no espaço que eu tinha diante de mim, uma certa visibilidade e consistência. O nada existe- posso agora escrever- eu encontrei-o.

Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que o que me atrai no vazio é o êxtase da possibilidade.

É verdade que no deserto se pode cair com extrema facilidade na vertigem do infinito, e é verdade, também, que a paixão pelo nada é muito mais perigosa que a paixão contrária, a ânsia da totalidade. Ora bem, o êxtase, o verdadeiro êxtase, só pode brotar do desprendimento e do esvaziamento que todo o deserto parece exercer e chamar.

Longe de tudo, em Beni Abbès percebi o ridículo e a insignificância das ânsias com que tanto me debati noutros tempos. Finalmente compreendia que se nasce para viver, para mais nada.. Que viver é a tarefa principal, e que para a levar a cabo, não é preciso desenvolver nenhuma atividade em particular.  

O deserto estava a fazer com que eu descobrisse que não há excelência nenhuma na conquista- seja ela qual for- que a excelência -se é que se pode falar dela - está na própria vida, e que viver consiste simplesmente em descobrir o elementar.

Por isso, em Beni Abbès nunca me importou ter quarenta e dois anos- os que ainda tenho- ou sessenta e seis, não me importava ser Checo ou Holandês, branco ou preto, bondoso ou mau. Nem sequer me importava ser um homem ou um animal, que as minhas posses ardessem ou que o meu nome se apagasse para sempre desses arquivos a que chamamos história. Deixou até de me inquietar se um dia voltaria à Europa.

O que, em compensação, me importava era estar ali, exatamente onde me encontrava: com o sol vermelho que se escondia atrás de uma duna, com o novo nome- Shasu- com que eu próprio me tinha batizado, e com a areia a escassos metros, a arrefecer rapidamente ao entardecer. Importava-me que tivesse olhos para ver a pele, para que a brisa da tarde me acariciasse.

- Sabes uma coisa?- Disse a mim mesmo.

- Estou muito bem aqui.” 💙😉

Relembre o excerto do livro “ Biografia do silêncio” de Pablo d`ors, carregue no seguinte link: 


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