A simbologia da imagem de Śiva Naṭarāja (a postura de equilíbrio desta semana)

A simbologia da imagem de Śiva Naṭarāja (a postura de equilíbrio desta semana)

A imagem de Śiva Naṭarāja é uma das representações mais ricas da arte e cultura hindu. É uma imagem cheia de simbolismo. Como sabem, eu adoro mitologia hindu, principalmente devido a este simbolismo e às metáforas, histórias, carregadas de mensagens e ensinamentos que fazem parte dela. 

Esta semana realizamos uma postura de equilíbrio que provém da dança Indiana, mas que também é utilizada em algumas escolas de yoga. O nome clássico desta postura é Bhujangatrasita Karana. Na minha primeira escola eu conheci esta postura com o nome de Śiva Natarajāsana, a postura de Śiva o rei dos bailarinos. No entanto, Śiva Natarajāsana, é também outra postura de equilíbrio (veja as duas imagens comparadas no final deste texto).

Resumindo:

O nome Śiva Natarajāsana é composto da seguinte forma:

  • Naṭarāja

Composto por naṭa, "dançarino"  e rāja,"rei". 

Significa "Senhor da Dança" ou "Rei dos Dançarinos".

  • āsana, significa " assento" , neste caso representa a postura.

Na tradição hindu, esta forma do Senhor dos dançarinos, está especialmente associada ao Ānanda Tāṇḍava, a "Dança da Bem-aventurança". 

Tāṇḍava designa a dança vigorosa e cósmica de Śiva e ānanda significa bem-aventurança.

Ou seja, esta postura representa a dança cósmica de Śiva, o ciclo de criação e dissolução do universo, o ciclo da vida. (veja a imagem acima)

De seguida irei explicar cada pormenor e a sua simbologia:

Os 4 braços de Śiva: 

  1. A mão superior direita - O tambor cósmico - Ḍamaru, é um pequeno tambor, geralmente com a forma de uma ampulheta. O seu som representa o primeiro som do universo, o som que deu origem a toda a criação. Do seu ritmo, da sua vibração surgiu a vida. O ḍamaru também pode evocar o ritmo alternado: expansão e contração do universo, aparecimento e desaparecimento, princípio e fim. Representa a natureza cíclica da vida.
  2. A mão superior esquerda - o fogo, Agni, representa o poder de dissolução e destruição do universo. Não se trata necessariamente de destruição no sentido negativo, mas a destruição daquilo que já não serve mais, a renovação.
  3. A mão inferior direita - o Abhayamudrā, o gesto que simboliza a dissipação do medo. Abhaya significa "ausência de medo" e mudrā significa "gesto" ou " senha". A palma da mão voltada para fora, geralmente com os dedos apontados para cima, transmite proteção, segurança e tranquilidade. Relembra que devemos parar e observar a raiz do medo. Este gesto é também comum em algumas imagens do Budismo. 
  4. A mão Inferior esquerda - Indica o caminho para o pé que se encontra elevado. O braço esquerdo orienta o olhar para o pé levantado de Śiva, que representa o refúgio, libertação.
Os dois pés de Śiva:
  1. O pé direito de Śiva - O pé direito encontra-se sobre uma figura,  Apasmārapuruṣa. frequentemente representada como um ser anão, que representa a ignorância, o esquecimento, a incapacidade de reconhecer a verdadeira natureza do ser. Ou seja, tudo aquilo que nos torna pequenos. Este gesto simboliza o domínio sobre a ignorância.
  2. O pé esquerdo elevado - Representa a libertação da ignorância, o refugio oferecido por Śiva, a possibilidade de libertação, Mokṣa. A mão esquerda dirige a atenção para esse refúgio.
O círculo de fogo: o universo em movimento

Prabhāmaṇḍala. Este termo é constituído por: prabhā que significa "esplendor" ou "irradiância" e maṇḍala "círculo" ou "disco".  É o esplendor do fogo.

Designa o anel de fogo que circunda a figura de Śiva e evoca a energia cósmica, a transformação e o caráter cíclico da existência. O Fogo é transformação e a imagem circular representa os ciclos da vida, da natureza, que se repetem.

O cabelo de Śiva em movimento

Jaṭāmukuṭa, a coroa de cabelo (Jaṭā designa o cabelo emaranhado ou as madeixas de um asceta e Mukuṭa significa, coroa).

As madeixas de Śiva projetam-se lateralmente e para cima, revelando a intensidade e a energia do movimento, enquanto o seu rosto continua sereno. O seu cabelo emaranhado representa a renuncia, a vida ascética e a disciplina espiritual. Representa também a energia do movimento, da transformação. O cabelo de Śiva também está associado ao rio Ganges ( nas representações tradicionais o rio Ganges desce dos céus através do cabelo de Śiva e este retem a força das águas para que a terra não fosse destruída), ou seja, este símbolo também simboliza a purificação e a compaixão.

A lua crescente

A lua crescente,  Ardhacandra representa o domino sobre os ciclos do tempo, uma vez que os ciclos da  lua expressam a passagem do tempo. Simboliza também o controle sobre a mente, emoções, pensamentos e paixões. A paz.
Ardha significa "metade" e candra significa "lua". 
A forma crescente também simboliza a energia do crescimento, a prosperidade.

O terceiro olho de Śiva

Tṛtīyanetra

Tṛtīya significa "terceiro" e netra "olho".

Śiva é tradicionalmente representado com três olhos. O terceiro olho, no centro da testa, associa-se ao conhecimento extraordinário e ao poder de ver para além da percepção comum e à intuição. 

A deusa Gaṅgā 

Em algumas representações, a figura de Gaṅgā, a deusa do rio Ganges, aparece na cabeleira de Śiva. A tradição conta, como já foi referido, que Śiva recebeu e conteve a força das águas celestes antes da sua descida à Terra.

A Serpente

A serpente, Nāga surge sob diversas formas na imagem de Śiva, por vezes enrolada num braço ou integrada nos seus ornamentos.

Está ligada às associações de Śiva com o mundo selvagem, o poder ascético e as forças que inspiram simultaneamente respeito e a transcendência. Representa o despertar da consciência, a Kuṇḍalinī.

O cordão

O cordão sagrado é usado sobre o pescoço. Relaciona-se com a disciplina e a meditação. As contas que compõem o cordão chamadas rudrākṣas, são usadas na meditação e na repetição de mantras.

A base, o pedestal

O  pedestal, Padmapīṭha. 
Padma significa "lótus" e pīṭha significa "assento" ou "pedestal".

Algumas esculturas de Naṭarāja assentam sobre uma base com pétalas de lótus. O lótus é um motivo recorrente na arte indiana, associado a imagens de pureza e beleza.

A forma exata do pedestal pode variar de escultura para escultura.


Esta informação foi inspirada nos ensinamentos do Professor Pedro Kupfer, João Paulo Dias, Marco e pesquisas pessoais.


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