Obstáculos à meditação

Obstáculos à meditação


Nas últimas semanas temos debatido alguns dos obstáculos que podem surgir ao meditar. Aqui vos deixo o resumo.

💙💙💙

Quando me sento para meditar, deparo-me com uma série de obstáculos. Alguns surgem ainda antes de me sentar; outros acompanham a própria prática e há, ainda, aqueles que se manifestam depois de meditar.

Uns são biológicos, outros físicos, mentais ou emocionais. Alguns estão relacionados com os nossos hábitos, as nossas expectativas e a forma como encaramos a vida.

Mas que obstáculos são esses? E como podemos aprender a lidar com eles?

1. O sono como obstáculo à meditação

O sono é um dos obstáculos mais comuns à meditação.

Quando nos sentamos e levamos a atenção à respiração, a mente começa a acalmar, o corpo a relaxar e a respiração a tornar-se mais subtil. Nesse momento, o sono pode surgir e, por vezes, acabamos mesmo por adormecer.

Para algumas pessoas, o período da manhã, logo após acordar, é o mais desafiante. Para outras, é à noite, quando o cansaço acumulado se faz sentir.

Este é um obstáculo de natureza biológica, embora também possa estar relacionado com os nossos hábitos, e com o estado de atenção que conseguimos manter.

Como lidar com o sono durante a meditação?
  • Não se culpe por sentir sono. Observe o que está a acontecer. Se estiver privado de descanso, talvez o seu corpo esteja simplesmente a pedir-lhe que durma. A meditação não pretende substituir o sono mas pode ajudar a reconhecer as suas necessidades.
  • Adote uma postura que favoreça a atenção. Sente-se com a coluna direita, mas sem rigidez, numa almofada ou numa cadeira. Não medite deitado/a.
  • Em vez de fechar os olhos, experimente manter os olhos entreabertos. Fixá-los suavemente num ponto pode ajudar a manter a vigilância.
  • Experimente outro horário. Talvez a manhã seja mais adequada do que a noite, ou vice-versa. 
  • Comece por praticar durante alguns minutos  e lentamente aumente o tempo dedicado à meditação.
  • Procure o apoio de um grupo e de um professor que o guie. O fator "grupo" pode ajudar a ultrapassar alguns dos obstáculos que possa vir a experenciar.
  • Observe o próprio sono. Experimente reconhecer os sinais de sonolência: o peso das pálpebras, a cabeça a inclinar-se, a atenção a dispersar-se. Observe sem se censurar. A sonolência também pode tornar-se um objeto de observação. 
  • Se o sono se manifesta noutras horas do seu dia, mesmo achando que está a dormir o suficiente, poderá ser útil avaliar a qualidade do seu sono e procurar ajuda especializada.

2. O desconforto físico como obstáculo à meditação

Quando nos sentamos para meditar, procuramos encontrar uma postura estável e confortável. Muitas vezes, escolhemos sentar-nos no chão, com as pernas cruzadas, e tentamos permanecer imóveis durante algum tempo.

Mas, lentamente, surge um desconforto na região lombar, uma tensão nos ombros ou no pescoço, os pés ficam dormentes e os joelhos começam a doer.

O desconforto físico pode tornar-se um obstáculo importante à concentração.

Com a prática, podemos desenvolver uma maior capacidade de abstração dos sentidos e também a capacidade de observar as sensações corporais sem reagir imediatamente a cada uma delas. No entanto, isso não significa que devamos ignorar a dor ou suportar posições prejudiciais.

A imobilidade não é um objetivo absoluto, nem precisamos sofrer para meditar.

Como lidar com o desconforto físico?

  • Mantenha o corpo ativo. O movimento regular, adaptado às suas capacidades, ajuda a preservar a mobilidade, a força e a saúde das articulações e um corpo ativo e saudável medita com mais facilidade. 
  • Comece com poucos minutos. Não precisa de meditar durante meia hora desde o primeiro dia. Comece com cinco minutos e aumente gradualmente, respeitando os seus limites.
  • Experimente diferentes posturas. Pode sentar-se numa cadeira, numa almofada ou no chão, desde que encontre uma posição estável e confortável.
  • Mantenha a coluna direita, sem tensão desnecessária. Uma postura natural facilita a respiração e ajuda a manter a atenção.
  • Faça alguns movimentos suaves antes e depois da prática de meditação. Mobilizar o corpo pode ajudar a reduzir a rigidez.
  • Aprenda a distinguir desconforto de dor. Uma sensação ligeira pode ser observada com curiosidade. Uma dor intensa, persistente ou crescente é um sinal para ajustar a postura ou interromper a prática.
  • Agasalhe-se se estiver frio. Diminua a intensidade da luz e torne o ambiente onde pratica o mais confortável possível. 

3. Não aceitar a mente caótica

As tradições contemplativas falam-nos da consciência, da presença e do silêncio. No entanto, quando me sento para meditar, posso sentir precisamente o contrário: uma mente caótica, desorganizada, que salta incessantemente de um pensamento para outro.

No budismo, a mente é frequentemente comparada a um macaco que salta de ramo em ramo, incapaz de permanecer quieto.

Desejamos uma mente tranquila, serena e livre de pensamentos. Mas será que esse desejo não se transforma, ele próprio, num novo obstáculo?

Quando me sento para meditar à espera de alcançar uma quietude total e absoluta, posso passar a prática inteira à espera de algo que acredito que deveria acontecer.

E, enquanto espero, mantenho a mente iludida com a fantasia do futuro e deixo de estar verdadeiramente presente no que está a acontecer agora.

O que fazer?

  • A mente tranquila, tal como a imaginamos é mais uma construção mental, alimentada pelas nossas expectativas.
  • A quietude não chega necessariamente quando a exigimos. Por vezes, quanto mais tentamos eliminar os pensamentos, mais nos envolvemos com eles.
  • Talvez o primeiro passo não seja procurar o silêncio, mas aceitar o ruído que existe em nós.
  • Aceitar a mente agitada não significa resignarmo-nos a ela, nem deixarmos de desenvolver a atenção. Significa reconhecer, sem julgamento e com verdade, aquilo que está presente neste momento.
  • Quando desejamos constantemente que a mente seja diferente, ficamos presos às nossas expectativas. Quando rejeitamos o que sentimos, ficamos condicionados pelas nossas aversões.
  • Meditar é aprender a estar connosco, tal como somos, aqui e agora - incluindo os nossos pensamentos, as nossas inquietações e as nossas contradições.
  • Se a mente está agitada, o primeiro passo é reconhecer essa agitação. O segundo é observá-la.
  • Não precisamos transformar cada pensamento num problema, nem seguir todos os pensamentos que surgem.
  • E lembre-se: não está sozinho. A distração e a inquietação fazem parte da experiência de todas pessoas que meditam, mesmo quando nem sempre o admitem.

4. Não viver uma vida meditativa

De que me serve sentar todas as manhãs durante meia hora para meditar, se depois vivo um relacionamento abusivo, trabalho incessantemente, não reservo tempo para mim e continuo a sentir um enorme vazio interior?

De que me serve concentrar a mente num mantra ou na respiração, se, dez minutos depois, grito, perco a calma e não procuro compreender o que aconteceu?

Somos humanos. Sentimos raiva, frustração, tristeza, medo e desilusão. Estas emoções fazem parte da vida.

O problema não está em senti-las, mas em vivê-las sem consciência, em sermos controlados por elas, reagindo automaticamente, sem procurar compreender o que as desencadeia ou de que forma influenciam as nossas escolhas.

Se não refletir sobre aquilo que sinto, se não procurar compreender as causas dos meus comportamentos e se não reconhecer os padrões que se repetem na minha vida, corro o risco de reduzir a meditação a um momento isolado, desligado da forma como vivo.

Meditar não é apenas fechar os olhos e tentar não pensar em nada. Por vezes, é precisamente o contrário. É olhar para dentro, com honestidade e coragem, sem fugir imediatamente ao que encontramos. É também aplicar na vida, é a própria vida.

Que fazer? 
  • Um exercício para fazer todos os dias, quando sentir tristeza, irritação, desespero ou frustração, experimente parar por alguns instantes. Em vez de reagir imediatamente, respire e observe o que está a sentir. Depois, coloque algumas perguntas a si próprio: O que estou realmente a sentir? O que aconteceu antes de esta emoção surgir? Que pensamento está associado a este sentimento? Que necessidade, expectativa ou receio poderá estar por detrás desta reação? Há alguma coisa que eu possa fazer de forma diferente? Aplique na vida este olhar atento.
  • Não se julgue. A vida é uma aprendizagem. Mas comece hoje a colocar em prática os valores, a ética que orienta qualquer praticante de yoga. Viva o yoga!
  • Recorde, a meditação deve saltar para a vida. Se ficar só no seu tapete de prática de nada vale.
  • Antes de dormir, reserve também alguns minutos para olhar para o dia que passou. Este olhar é consciência e vai promover, aos poucos atitudes mais conscientes na vida.
  • Faça da sua vida uma meditação. Beba um chá com consciência, passeie o seu cão com consciência, fale com consciência e se tiver de se zangar, zangue-se com consciência.

5. Acreditar que todos vivemos a meditação da mesma forma

A experiência de uma pessoa não é necessariamente a experiência de outra.

Cada um de nós tem uma história, um corpo, uma sensibilidade e uma forma particular de compreender o mundo.

Se a meditação é também um caminho de autoconhecimento, então tentar reproduzir exatamente a experiência de outra pessoa pode afastar-nos da nossa própria experiência.

Podemos aprender com os outros, escutar os nossos professores e receber orientação dos nossos mestres. Mas não precisamos de sentir, viver ou interpretar tudo da mesma maneira.

Recordo-me de ouvir a história de um monge que, durante anos, praticou meditação procurando alcançar o silêncio interior. Como não conseguia obter os resultados que esperava, decidiu consultar o seu mestre.

Este aconselhou-o a experimentar outro caminho.

Foi então que o monge descobriu uma prática centrada nas sensações do corpo, utilizando os sentidos como portas de entrada para o momento presente.

Aquilo que antes parecia um obstáculo transformou-se numa descoberta.

Independentemente da origem exata desta história, ela ilustra uma ideia importante: nem sempre o caminho que funciona para os outros é aquele de que precisamos em determinado momento.

O que fazer?

  • Lembre-se, a meditação é uma experiência pessoal, embora possa ser enriquecida pela orientação de outras pessoas.
  • Por mais experiência que tenha um mestre, por mais anos de prática que tenha um professor, isso não significa que saiba o que é melhor para nós, que conheça a nossa experiência interior ou que detenha todas as respostas.
  • Experimente diferentes abordagens. Observe o que acontece. Procure compreender o que faz sentido para si e o que corresponde às suas necessidades.
  • Pode começar pelo foco na respiração, nas sensações corporais, pela atenção aos sons, pela repetição de um mantra ou pela observação dos pensamentos. Escolha a forma que sente que resulta melhor para si e mantenha-a durante um período.
  • Aprenda com os outros, mas não deixe de escutar a sua própria experiência e intuição. A orientação de um professor competente pode ser muito valiosa. A sua função não é impor-lhe uma experiência, mas ajudá-lo/a a desenvolver a capacidade de observar, compreender e praticar com autonomia e verdade.

6. O desejo de alcançar a iluminação

Será que o desejo de alcançar a iluminação pode tornar-se um obstáculo à própria meditação?

Em determinadas tradições espirituais, o apego aos resultados é entendido como uma fonte de insatisfação. Queremos alcançar alguma coisa, chegar a algum lugar, tornar-nos alguém diferente daquilo que somos.

E, nessa procura, podemos partir da ideia de que nos falta alguma coisa.

Porque quero alcançar a iluminação? Talvez para ser feliz, livre ou para deixar de sofrer.

Mas, se procuro a felicidade e a liberdade, não estarei também a construir uma imagem daquilo que acredito que me falta?

O meu professor Pedro Kupfer referiu, numa palestra a que assisti, uma ideia que me ficou na memória: só desejamos comer laranjas porque já conhecemos o sabor das laranjas. Se procuramos a plenitude é porque já a conhecemos. Já somos plenos.

A analogia convida-nos a refletir sobre a natureza dos nossos desejos: de onde vêm e em que experiências, conceitos ou expectativas se apoiam?

E há o outro lado, e se aquilo que procuramos não for exatamente o que imaginamos?

E se a felicidade, a liberdade ou a paz não dependerem apenas de alcançar um estado extraordinário, mas também da forma como nos relacionamos com a experiência presente?

Surge então outra pergunta: será que a própria necessidade de se afirmar como iluminado não poderá tornar-se mais uma identificação do ego?

Numa palestra online sobre meditação, o professor Marco Peralta apresentou uma reflexão que também me marcou: talvez a iluminação possa ser compreendida como o reconhecimento daquilo que somos, antes das ideias que construímos sobre nós próprios.

O que fazer?
  • Aceite aquilo que encontra em si neste momento, sem transformar a aceitação numa desculpa para deixar de crescer.
  • Observe os conceitos que construiu sobre si próprio. São factos ou interpretações? São verdades absolutas ou ideias que aprendeu a repetir?
  • Questione a necessidade de alcançar um estado extraordinário para se sentir completo.
  • Procure reconhecer a sua humanidade, incluindo as qualidades, as fragilidades e as contradições que fazem parte da sua experiência. Talvez não seja necessário procurar constantemente uma versão ideal de nós próprios. Talvez possamos começar por observar aquilo que somos, sem acrescentar imediatamente um novo objetivo.
  • Não transforme a iluminação em mais uma meta que o afasta do presente.
  • Reflita, só buscamos aquilo que já conhecemos.

7. Meditar apenas para eliminar o stress

A meditação pode ajudar-nos a lidar melhor com o stress, a desenvolver a atenção e a reconhecer as nossas reações emocionais.

Mas será que a sua finalidade se esgota nesses benefícios? Será que existe sequer uma finalidade?

Na perspectiva contemplativa que aqui exploramos, a meditação é também um caminho de autoconhecimento.

A redução do stress pode ser um dos seus benefícios, mas não é garantida, nem acontece da mesma forma para todas as pessoas. Além disso, algumas práticas podem, em determinadas circunstâncias, intensificar o desconforto emocional.

Se praticarmos apenas à espera de eliminar o stress, corremos o risco de avaliar cada sessão com base num único critério: senti-me melhor ou não? E também corremos o risco de obter somente aquilo que desejamos e nada mais, uma vez que não damos espaço para que outros aspectos se manifestem.

E pior, quando o resultado não corresponde às nossas expectativas, podemos concluir que a meditação não funciona.


O que fazer?

  • Em primeiro lugar, procure não transformar a própria meditação numa fonte adicional de stress. Não precisa de conseguir resultados extraordinários em cada sessão, nem de medir o seu progresso apenas pela sensação de tranquilidade.
  • Se pretende aprofundar o autoconhecimento, pratique a atenção plena e desenvolva a capacidade de observar os pensamentos, as emoções e as sensações sem reagir automaticamente. Esta observação vai dar-lhe ferramentas úteis para gerir o stress.
  • Se a meditação lhe proporcionar apenas alguns momentos de descanso e bem-estar, isso também tem valor. Não precisamos de desvalorizar os benefícios mais simples ou temporários para reconhecer a profundidade que a prática pode alcançar. 

8. A preguiça e a falta de motivação

O desejo de adiar, a falta de motivação e a dificuldade em criar uma rotina podem tornar-se obstáculos importantes à prática da meditação.

Este é um desafio que não se limita à meditação. Também surge quando tentamos iniciar uma atividade física, aprender algo novo ou manter um hábito que exige tempo e persistência.

Muitas vezes, esperamos sentir motivação para começar. Mas a motivação nem sempre aparece antes da ação. Por vezes, é a própria prática regular que nos ajuda a criar o hábito e a motivação.

O que fazer?
  • Comece com pouco. Cinco minutos de prática podem ser um ponto de partida realista.
  • Escolha um horário possível. Associe a meditação a um momento da rotina, como depois de acordar, antes de iniciar o seu dia.
  • Não dependa exclusivamente da motivação. Nos dias em que não lhe apetece meditar, experimente sentar-se durante alguns minutos, sem exigir demasiado de si, mas sente-se.
  • Encontre um equilíbrio. A disciplina é importante, mas o descanso, o trabalho, as relações e as restantes responsabilidades também merecem atenção. Não ter motivação para iniciar pode deixar-nos descontentes, mas geralmente uma grande rigidez e uma disciplina sem equilíbrio levam ao abandono da prática e à desmotivação.
  • Recomece sempre que necessário. Se interromper a prática durante alguns dias, não transforme essa interrupção numa razão para desistir.
  • Na vida, existem muitas coisas que só compreendemos verdadeiramente quando lhes dedicamos tempo e atenção. Observe-se quando lhe faltar o ânimo. Conhecer-nos pode ser uma das viagens mais importantes que empreendemos.

9. O desejo como obstáculo à meditação

A mente procura frequentemente estímulos, sensações agradáveis e experiências que lhe proporcionem prazer.

Apegamo-nos ao que gostamos e tendemos a afastar aquilo que nos incomoda. Procuramos repetir as experiências agradáveis e evitar as desagradáveis.

Durante a meditação, este movimento pode manifestar-se de várias formas: queremos ouvir uma música, verificar o telemóvel, recordar algo agradável, planear o futuro ou abandonar a prática porque nos sentimos inquietos.

A mente procura constantemente alguma coisa em que se possa fixar, uma distração, um desejo.

Nas tradições contemplativas, a observação do desejo e do apego ocupa um lugar importante, precisamente porque estes podem condicionar a nossa experiência.

O que fazer?

  • Não precisa de lutar contra todos os desejos que surgem. Quando perceber que deseja interromper a meditação, mudar de posição ou procurar uma distração, experimente observar esse impulso antes de agir.
  • Pergunte a si próprio: O que estou a desejar neste momento? Que sensação espero obter? Estou a agir por necessidade ou por hábito? Consigo permanecer alguns instantes com esta vontade, sem lhe obedecer imediatamente? Este questionamento é importante para se conhecer a si mesmo/a.
  • Observe o desejo sem o alimentar nem o condenar e recorde, o desejo também é uma experiência da mente, muda, transforma-se. Depois, foque-se naquilo que permanece para lá de qualquer desejo.
  • Não tem de eliminar a capacidade de desejar, mas apenas reconhecer que nem todos os desejos precisam de determinar o nosso comportamento.
  • Ao observarmos os nossos desejos, podemos começar a reconhecer os padrões que nos afastam daquilo que realmente somos, quando estamos livres de desejos.

10. O medo como obstáculo à meditação

A meditação pode proporcionar momentos de maior contacto com a nossa experiência interior. Ao abrandarmos o ritmo e observarmos aquilo que sentimos, podemos tornar-nos mais conscientes de emoções, preocupações ou memórias que habitualmente evitamos. 

Por vezes, esse contacto é desconfortável. Podemos encontrar tristeza, vergonha, medo, raiva ou sentimentos que não sabemos muito bem como interpretar.

Quando isso acontece, é natural que surja a vontade de interromper a prática ou de evitar voltar a sentar-nos em silêncio.

Contudo, é importante não assumir que todas as emoções difíceis resultam da de conteúdos inconscientes ou talvez de traumas antigos. A nossa experiência emocional é complexa, e cada pessoa tem a sua própria história e que evitar olhar para estes conteúdos não é a solução para os ultrapassar.

O que fazer?

  • Em primeiro lugar, não se obrigue a enfrentar tudo de uma só vez. O autoconhecimento não exige que nos exponhamos a um sofrimento para o qual não estamos preparados. É possível desenvolver a consciência interior gradualmente, respeitando o nosso ritmo. Procure ajuda especializada se sentir necessidade.
  • Reconheça o que sente. Em vez de afastar imediatamente uma emoção, tente nomeá-la e observar como se manifesta no corpo. Respeite os seus limites. Se a prática se tornar demasiado intensa, abra os olhos, movimente-se, respire e regresse à atenção ao ambiente.
  • Não confunda aceitação com resignação. Aceitar uma emoção significa reconhecer que ela está presente, não significa concordar com tudo o que pensa ou sente, nem permanecer em situações prejudiciais. Quanto melhor compreendermos as nossas reações, mais oportunidades teremos de escolher como agir perante as dificuldades.
  • Recorde, todos têm o seu lado sombrio. Não está só. Reconhecer este seu lado não o torna uma pessoa pior, apenas mais consciente.

11. Procurar experiências extrafísicas ou sobrenaturais através da meditação

A mente gosta de novidades. Procura experiências intensas, sensações diferentes e acontecimentos que pareçam extraordinários.

Por vezes, aproximamo-nos da meditação à espera de sentir algo especial: energia a percorrer o corpo, sensações associadas aos chakras, estados modificados de consciência ou experiências que interpretamos como espirituais.

Não há nada de estranho em sentir curiosidade por estas possibilidades. O problema surge quando nos apegamos a elas e quando transformamos essas experiências numa condição para continuar a praticar.

A meditação pode envolver sensações inesperadas, alterações na percepção do corpo ou momentos de grande tranquilidade. As interpretações espirituais dessas experiências variam entre tradições e com as experiencias pessoais.

A meditação também pode ser simples, repetitiva e pouco espetacular. Sentamo-nos. Respiramos. Sentimos o corpo. A mente dispersa-se. Regressamos à respiração. E voltamos a fazê-lo.

Se perguntarmos a alguém se prefere sentar-se e observar tudo o que o momento lhe traz - incluindo o aborrecimento, a inquietação e os pensamentos caóticos,  ou se prefere sentir uma energia extraordinária e luminosa a percorrer o corpo, talvez seja fácil adivinhar qual das opções lhe parece mais atraente.

Esperamos que a meditação nos proporcione experiências divinas. Criamos ideias, desejos e expectativas. E, quando não obtemos aquilo que procuramos, podemos sentir-nos frustrados e acabar por desistir.

O que fazer?
  • Não crie expectativas rígidas sobre aquilo que a meditação deve proporcionar nem se baseie nos relatos e experiências de outros.
  • Mantenha uma atitude curiosa, aberta e atenta ao que realmente acontece.
  • Não interprete automaticamente cada sensação como um sinal de progresso espiritual. O yoga ensina-nos a não atribuir muita importância a estas sensações, elas podem constituir um entrave à evolução da consciência.
  • Reconheça o desejo de viver algo extraordinário, sem precisar de o condenar, mas experimente descansar, durante apenas alguns minutos, da necessidade de procurar alguma coisa.
  • Talvez a experiência mais importante não seja aquela que nos transporta para longe da vida quotidiana, mas aquela que nos ajuda a estar mais presentes nela. Talvez o mágico e o sublime não tenham de representar uma fuga à vida. Talvez possam ser uma forma mais profunda de a habitar. Podemos descobrir beleza na rotina, no calor de uma chávena de chá, num abraço, numa manhã de sol ou no aroma de uma fruta acabada de cortar. A vida pode não mudar radicalmente, mas a forma como estamos presentes nela pode transformar a nossa experiência. Existe uma frase conhecida que ilustrativa desta ideia: Não precisamos de rejeitar a terra para alcançar o céu.
  • Viva o momento presente, com toda a sua simplicidade e complexidade. O presente merece ser vivido com atenção.

12. A dúvida como obstáculo à meditação

A dúvida pode enfraquecer a nossa motivação e levar-nos a abandonar a prática antes de lhe darmos tempo suficiente.

É saudável questionar. É importante observar, investigar e procurar compreender aquilo que fazemos.

Não precisamos de acreditar cegamente nos ensinamentos de um mestre, nem de aceitar todas as afirmações sobre a meditação sem as examinar.

No entanto, quando começamos a praticar com expectativas muito elevadas e os resultados não correspondem ao que imaginávamos, a dúvida pode transformar-se em desânimo. Também, quando a vida é mais exigente e sentimos que não estamos tão equilibrados, pode surgir a duvida - Será que isto funciona?

Ouvimos os nossos professores falar de tranquilidade, consciência ou transformação interior e esperamos encontrar imediatamente essas experiências.

Quando isso não acontece, perguntamo-nos se estamos a fazer alguma coisa errada ou se a meditação funciona realmente.

O que fazer?

  • Observe a sua experiência, sem a transformar numa prova que tem de passar. Depois de meditar, procure perceber como se sente. Está mais consciente do corpo? Conseguiu reconhecer os pensamentos sem os seguir imediatamente? Notou alguma mudança na forma como reage às distrações?
  • Recorde que a dúvida e a forma como se sente, também são experiências da mente
  • Nem todas as sessões serão tranquilas ou agradáveis. E uma sessão difícil não significa necessariamente que tenha sido inútil. Dê tempo à prática, mas mantenha o discernimento.
  • Procure orientação junto de um professor qualificado ou de um grupo de confiança. Faça perguntas, explore diferentes abordagens e procure informação credível sobre aquilo que pratica.
  • Lembre-se de que a experiência de cada pessoa é diferente. Não precisa de sentir aquilo que os outros descrevem para que a sua prática tenha valor.
  • A dúvida pode ser um obstáculo quando nos impede de experimentar; pode também ser uma ferramenta importante quando nos ajuda a investigar com honestidade.

Afinal, como podemos ultrapassar os obstáculos à meditação?

Talvez a primeira coisa a compreender seja que os obstáculos não são necessariamente sinais de fracasso.

O sono pode revelar cansaço. O desconforto pode indicar que precisamos de ajustar a postura. A mente agitada pode mostrar-nos como nos relacionamos com os pensamentos. A impaciência pode revelar expectativas. E a vontade de desistir pode ajudar-nos a compreender os nossos hábitos, gatilhos e bloqueios. Veja os obstáculos como sinais, oportunidades para se conhecer.

Nem todos os obstáculos desaparecem imediatamente com a prática, e não precisamos de os eliminar a todos, para meditar. O que podemos desenvolver é uma relação mais consciente com aquilo que surge.

A prática não exige uma mente perfeita, um corpo absolutamente imóvel ou uma vida sem problemas. Exige apenas que estejamos disponíveis para observar a experiência, dentro dos nossos limites e com a atitude adequada.

Talvez a meditação comece precisamente aí: quando deixamos de exigir que o momento seja diferente daquele que é e aprendemos a estar presentes para o viver.

Uma proposta de prática diária

Escolha um lugar tranquilo e reserve alguns minutos para si. Procure não ser incomodado/a.
Desligue o seu telefone.

Sente-se numa posição confortável, com a coluna direita e o corpo descontraído mas firme. Procure a posição melhor para si.

Se desejar, feche os olhos ou mantenha-os entreabertos e fixos num ponto.

Leve a atenção à respiração, sem tentar controlá-la. Observe o ar a entrar e a sair.

Repare nas sensações do corpo, nos sons à sua volta e nos pensamentos que surgem.

Não tente eliminar o que aparece. Também não precisa de seguir cada pensamento.

Quando perceber que a atenção se desviou, reconheça o que aconteceu e regresse suavemente à respiração.

Se surgir desconforto, ajuste a postura. Regresse à respiração. Se sentir emoções intensas, respeite os seus limites. respire, regresse. 

Durante estes minutos, não precisa de alcançar um estado especial.

Sente-se. Observe. Respire. Permita que a experiência se revele, sem exigir que seja diferente.

E, acima de tudo, leve um pouco dessa consciência para a vida quotidiana.

A prática pode começar no silêncio, mas o seu verdadeiro alcance revela-se também na forma como vivemos.

Que outros obstáculos encontra na sua prática de meditação?

Partilhe connosco a sua experiência. Podemos aprender muito uns com os outros, respeitando os diferentes caminhos e as diferentes formas de viver a prática.

Que a nossa prática seja cada vez mais consciente, paciente e verdadeira.

Boas práticas, com consciência. 💙

Este texto foi inspirado nos ensinamentos dos professores Pedro Kupfer, João Paulo Dias e Marco Peralta, bem como em pesquisas e reflexões pessoais. As referências às tradições espirituais e às experiências de meditação refletem uma perspectiva contemplativa e não devem ser entendidas como afirmações universais.




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