Deve o Professor de Yoga ensinar algo que não sabe ou não pratica?

Deve o Professor de Yoga ensinar algo que não sabe ou não pratica?

Uma mãe levou o seu filho ao Mahatma Gandhi e implorou-lhe que o convencesse a deixar de comer açúcar. Este, após uma pausa, pediu à mãe que trouxesse o seu filho dentro de duas semanas.

Duas semanas depois, a mãe regressou com o seu filho e Gandhi olhando-o nos olhos disse: “ Não coma açúcar!!!”

A mãe, agradecida mas confusa, questionou-o:

“ Porque me pediu que trouxesse o meu filho após duas semanas, se podia ter dito a mesma coisa no primeiro dia em que cá estivemos?”

Então Gandhi respondeu: " Há duas semanas atrás eu ainda comia açúcar!”


Esta deliciosa história, que ouvi pela primeira vez narrada pela querida Monja Coen, fala sobre verdade. Este é um valor que, acima de tudo, tem de estar presente na nossa relação connosco.

Mahatma Gandhi não ensinava nada que ele próprio não praticasse. Essa sua postura demonstra uma honestidade e humildade de grande valor e mérito.


Contei esta pequena história, na última aula de yoga, a respeito de uma questão um pouco controversa e que divide opiniões:

Será que um professor de yoga deve ensinar aos seus alunos algo que não experimentou ou que não sabe fazer?

No mundo do yoga, as opiniões dividem-se. Existem professores que não ensinam algo que não dominam, pois consideram que isso seria um ato desonesto, que poderia colocar em causa a segurança dos alunos. Outros, porém, dizem que ao decidir não ensinar estão, de certa forma, a limitar o desenvolvimento dos seus alunos na prática. Afinal, porque um professor não sabe fazer uma postura ou uma técnica, isto não significa que deva limitar os seus alunos.

Ambas as opiniões contém a sua verdade! 

Esta é uma questão muito pessoal, que vai depender da integridade, dos valores ou dos objetivos de cada professor para com cada aluno.

Os Vedas, que formam a base do extenso sistema de escrituras sagradas do hinduísmo, afirmam que o conhecimento deve ser transmitido de Mestre a discípulo, a isto se chama paramparā. Este conhecimento é transmitido oralmente, pois deriva da prática, da experiência do próprio Mestre.

O verdadeiro Mestre deveria viver conforme aquilo que prega, ou seja, só deveria ensinar aquilo que faz parte da sua vida, da sua rotina, da sua prática.

De que forma um professor pode transmitir como iniciar a prática da meditação, por exemplo, se ele mesmo não se senta, todos os dias para meditar? Sem sentir os desafios e as dificuldades que surgem com a prática da meditação, como se pode preparar um aluno?

Como transmitir a forma correta de executar um prānāyāma, os seus efeitos, benefícios e riscos, se nunca se colocou em prática?

Como ensinar o passo a passo para a execução de um Śīrṣāsana, a invertida sobre a cabeça, se o professor nunca o fez e não sabe quais os músculos que deve ativar em cada etapa da execução? As dificuldades, o desequilíbrio irão surgir pelo caminho da tentativa, como ensinar a ultrapassá-los sem conhecimento? Mais importante ainda, como ensinar a vencer o medo, a insegurança ao fazer uma invertida, se o professor ainda não venceu esse medo?

Por outro lado, deverá o aluno ficar eternamente condicionado pela evolução do professor? Ou, o que fazer quando um aluno quer muito aprender uma determinada técnica? Técnica esta que o professor não domina?

Tudo é uma questão de bom senso e equilíbrio. Na minha forma de ver, há técnicas que poderão ser passadas e outras nem por sombras. Cabe ao professor decidir qual a melhor altura para ensinar. Cabe também a este, perceber se o seu aluno está pronto para receber um ensinamento.

No entanto, julgo que a honestidade do professor perante o aluno, deve prevalecer sempre!

O professor deve assumir um compromisso de verdade para com o seu aluno, e embora ainda não domine uma técnica, informar o aluno e praticar, é o mínimo que o professor tem a fazer! Em alternativa, pode optar por permanecer nas técnicas intermédias de “ treino”.

Algumas técnicas mais complexas ou avançadas, que estão relacionadas com meditação, prānāyāmas, bandhas ou até invertidas, requerem a prática regular e o domínio por parte do professor para não colocar o aluno em risco.

Como fica a imagem de um professor que assume não saber executar uma técnica?

Este é um aspeto que o professor não controla e que está sobretudo relacionado com a visão pessoal do aluno, com a sua forma de estar e interpretar a vida.

O professor pode aproveitar para ensinar o valor da verdade, da humildade, da complicidade. Pode realçar a importância dos "obstáculos" para praticar svādhyāya, o auto estudo, desafiando o aluno a observar os seus sentimentos/ pensamentos perante o desempenho do professor.

Pode igualmente, aproveitar a sua incapacidade ou limitação ( se é que se pode chamar assim), para ensinar a igualdade, afinal todos temos “ lacunas”, e estas não são impeditivas para o  alcance de algo muito mais valioso, o autoconhecimento. 

Será que o autoconhecimento depende da realização de um Śīrṣāsana? Na verdade, não depende de todo, de nenhuma técnica de yoga em específico. Se o autoconhecimento dependesse da conquista de um āsana, alguém sem uma perna, com uma lesão num braço ou na coluna, nunca poderia atingi-lo.

Como o querido Professor Hermógenes, um dos precursores do yoga no Brasil, referiu numa das suas palestras, “ Ninguém viu o  grande (Yogin) Jesus Cristo, fazer uma invertida sobre a cabeça”. O que o Professor Hermógenes quis dizer com esta afirmação, é que alguém como Jesus Cristo, não deve a sua luz, o seu Amor ou a sua sabedoria, a nenhuma técnica física do yoga. Todos concordamos que há algo muito mais profundo e valioso em jogo. O yoga é um caminho que auxilia o autoconhecimento, mas não é o único e depende muito de quem pratica e de como pratica.

Perante uma inaptidão por parte do professor, haverá alunos que irão reconhecer a sua humanidade, outros darão valor à sua honestidade, outros ainda lidarão com alguma desilusão, que pode estar relacionada com o “desfazer” da imagem perfeita do professor de yoga. O próprio professor pode sentir-se invadido por sentimentos de insegurança, vaidade, medo ou pode usar estes desafios como catapultas para o seu crescimento e superação.

Nenhuma destas reações/ formas de ver, estão certas ou erradas. São apenas espelhos do interior de cada um de nós, nalguma fase de vida em particular. E isso não é bom nem mau, é como é. Praticar a verdade, também implica aceitar em que fase do nosso crescimento estamos, aceitarmo-nos como somos.

E você? Como se sente com as suas “falhas” ou “limitações”? E com as "falhas" do seu professor? Pense nisso com verdade e muito carinho.

Lembre-se : Não somos os nossos pensamentos, nem as nossas emoções. Aquilo que pensamos e sentimos hoje, pode mudar totalmente amanhã ou no próximo segundo até. O mais certo é que mude mesmo.

Foquemos a nossa energia naquilo que permanece, isso sim merece todo o nosso investimento! O que permanece sempre foi, e sempre será.

Por fim, só um aparte: Ambos, professor e aluno, podem trocar de papel. Quantas vezes um aluno é Mestre e quantas vezes o professor é também um aprendiz!

Deixo-vos um mantra e a sua tradução:

Oṁ sa ha nāvavatu |

sa ha nau bhunaktu |

saha vīryaṁ karavāvahai |

tejasvinā vadhītamastu |

mā vidviśāvahai ||

oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||

Oṁ

Oṁ. Que eu e tu estejamos protegidos

Que estejamos nutridos

Que trabalhemos juntos com energia e vigor.

Que nosso conhecimento seja realizador.

Que nunca confundamos os nossos papéis.

Que haja paz, paz, paz. Hariḥ Oṁ.


Namaste! 💙






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