Excerto do livro “Siddhartha, um poema Indiano”, de Hermann Hesse e pequena reflexão

Excerto do livro “Siddhartha, um poema Indiano”, de Hermann Hesse e pequena reflexão

"Quero ficar junto a este rio, pensou Siddhartha, é o mesmo que eu atravessei um dia, a caminho do povo de crianças; um barqueiro amável transportou-me nesse dia, irei para junto dele”...” Olhou afetuosamente para a água, para o seu verde translúcido, para as linhas cristalinas dos seus contornos cheios de segredos. Viu pérolas cintilantes emergirem do fundo, bolhas de ar flutuando serenamente no espelho de água, refletindo o azul do céu. O rio olhava para ele com mil olhos, verdes, brancos, cristalinos, azuis celestes. Como ele amava esta água, quanto ela o fascinava, quão agradecido estava! Ouvia a voz falar-lhe ao seu coração, desperta outra vez, dizendo-lhe:

Ama esta água! Fica com ela! Aprende com ela! Sim, ele queria aprender com ela, queria escutá-la. Parecia-lhe que quem compreendesse esta água e os seus segredos compreenderia muitas outras coisas, muitos segredos, todos os segredos. Mas hoje, dos segredos do rio ele via apenas um, um segredo que enchia a sua alma: Aquela água corria continuamente, corria sempre, mas estava sempre ali, para todo o sempre a mesma e, no entanto, a cada momento nova! Ah! Quem isto compreendesse!"

(Pequeno excerto do livro “Siddhartha, um poema Indiano”, de Hermann Hesse.)

Esta é a história de Siddhartha, um brâmane da casta sacerdotal hindu, que decide libertar-se da sua casta, deixar a sua vida de luxos e riquezas. Despediu-se de seu pai e juntou-se aos Samaṇas, os ascetas que viviam na mais absoluta renúncia e busca pela iluminação.

Siddhartha parte para a sua vida de abnegação procurando pelo seu verdadeiro eu, e esta é a sua história, repleta de poesia. A história do seu caminho de busca pelo autoconhecimento, das suas aventuras e desventuras, dos excessos e privações, das revelações que o caminho lhe trás. 

Neste pequeno excerto que tanto me emocionou e que relata uma das lições que o rio ensina a Siddhartha, está expressa, na minha opinião, a ideia de que os grandes ensinamentos são também os mais simples e acessíveis a todos nós. 

Esta semana, numa pequena conversa com uma querida aluna, referi este livro e a simplicidade da sua mensagem. A simplicidade por vezes é dificil de entender, precisamente por ser/estar tão acessível.

Nas palavras de um sábio, por mais elevadas que sejam, podemos não encontrar a mesma profundidade que se encontra no rio, nem a mesma clareza ou transparência.
Muitas vezes, nas nossas buscas, estamos tão obstinados em encontrar respostas e soluções que perdemos algo pelo caminho. Na ânsia de procurar a verdade, não permitimos que a verdade nos encontre simplesmente. 

A busca é importante e faz parte da viagem da vida, mas se não mantivermos o coração atento ao que é mais simples, poderemos simplesmente perder o caminho.

“ Procurar significa ter um objetivo. Mas encontrar significa ser livre.” Hermann Hesse, Siddhartha.


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