Pergunta de um aluno

 Pergunta de um aluno

Uma querida aluna, que anteriormente havia praticado yoga numa outra escola, perguntou-me se a forma como nos sentamos e o cruzamento das pernas fazia alguma diferença nas posturas de meditação. Na escola onde ela havia praticado, sugeria-se que as mulheres colocassem o calcanhar direito junto ao períneo e os homens o esquerdo.

Colocar o calcanhar direito ou o esquerdo junto ao períneo faz alguma diferença? Deverá ser diferente para o homem e para a mulher?

Há escolas que defendem, que a posição das pernas é diferente para homens e para mulheres. Estas escolas justificam esta recomendação, referindo a polaridade do corpo subtil. 

O calcanhar negativo, segundo estas escolas, deve ficar junto do períneo. O calcanhar de polaridade negativa para os homens seria o esquerdo e para as mulheres, o direito. Estas polaridades iriam, supostamente, influenciar toda a energia do corpo físico e subtil.

Outras escolas e tradições, com as quais mais me identifico, referem que nas antigas escrituras hindus, não existem referências a posturas unicamente para homens ou mulheres.

O cruzamento das pernas, pode e deve ser trocado mediante o objetivo pretendido e por uma questão de equilíbrio, para que não se criem  desequilíbrios musculares e articulares e para que não haja lesões futuras. 

No decorrer de uma prática de yoga, é comum e saudável, que professor sugira a troca do cruzamento das pernas aos seus alunos, se o tempo usado nas técnicas de prāṇāyāma ou meditação, por exemplo, for um pouco mais longo que o habitual. Isto vai evitar o cansaço e o sacrifício da articulação dos joelhos e coxofemoral. A longo prazo, a troca do cruzamento das pernas, evita também que o aluno " cristalize" numa determinada postura, não conseguindo fazer variações.

Usar a mão direita ou a mão esquerda, a narina direita ou a esquerda, ou alterar a posição dos pés durante a execução de uma determinada técnica, pode alterar o resultado dessa técnica, pois a nossa percepção em relação à técnica altera-se também. 

Por exemplo, ao voltar as palmas das mãos para cima, cultiva-se uma atitude interna mais receptiva. A própria posição das mãos, voltadas para cima, não permite uma atitude corporal tão relaxada, como quando voltamos as palmas das mãos para baixo e as descansamos sobre os joelhos. 

Por esta razão, conforme o objetivo pretendido, pode-se alterar a posição das mãos. Se estou ensonado/a ou se pretendo estar mais receptivo/a, volto as palmas das mãos para cima. Se estou muito agitado/a ou se quero mergulhar mais tempo nas técnicas de meditação, pouso as mãos com as palmas para baixo, numa atitude mais introspectiva.

Todas as técnicas porém, podem ser usadas por homens e por mulheres. 

No entanto, usar o lado direito ou esquerdo do corpo altera a prática. Existe uma prática que se designa de Swara yoga, que refere que, ao alterar a narina com que respiramos, narina esquerda ou narina direita, estamos a alterar também a atividade dos diferentes hemisférios cerebrais, ativando os sistema nervoso simpático ou o parassimpático.

Da mesma forma que podemos alterar a narina em atividade, podemos alterar também a posição das mãos ou dos pés, mediante o nosso objetivo, quer sejamos homens ou mulheres. 

Dependendo do objetivo pretendido, podemos escolher colocar um, ou o outro calcanhar  junto ao períneo. No entanto, não devemos esquecer que somos seres únicos e a forma de sentir e interpretar os sinais do nosso corpo, vai ser diferentes para cada um de nós. Logo, um pouco de bom senso, equilíbrio e uma observação atenta sobre nós mesmos, pode ser o mais indicado. 

Não se limite a seguir regras cegamente, experimente, pratique e lembre-se de manter o seu espírito crítico e a observação sobre si mesmo, sempre presentes.

Para entender este tema complexo, do uso do lado direito e esquerdo do corpo para alcançar diferentes objetivos, teremos de ter em conta alguns conceitos básicos.

Preparem-se para um longo discurso! 😁

O que são as Nāḍīs?

Nāḍī significa rio, corrente ou torrente. As nāḍīs são então os canais por onde flui o prāna, a energia vital ou primordial, a bioenergia. 

O prāna pode ser considerado muitas vezes, como um sinónimo da respiração pulmonar, mas esta definição é muito limitadora. O prāna é muito mais que o ar que respiramos, é a energia da mente e mais profundamente, da própria consciência. É qualquer forma de energia que se manifeste no corpo físico, mental, emocional e energético. Por exemplo, o calor é uma manifestação do prāna.

Esta energia é também absorvida através do ar, da respiração, e flui por uma rede de canais sutis e energéticos, as nāḍīs.

Estes canais, quando se cruzam ou quando entram em convergência, produzem centros de força, os chamados chakras*. Os pontos de acupuntura, shiatsu e Do-In são também chakras, que têm uma relação direta com os diversos órgãos.

Existem muitas nāḍīs no corpo humano, há autores que referem a  existência de cerca de 16108 nāḍīs, a tradição menciona 72.000 nāḍīs no corpo subtil (como podem observar na imagem no final deste texto). Este número é simbólico, pois cada pessoa é única e possui um número diferente de veias, artérias e capilares, e o mesmo acontece com as nāḍīs. 

Estes canais não são visíveis, ou seja, se formos em busca de tais canais no corpo humano, não encontraremos nada. Eles pertencem ao corpo sutil e representam o caminho percorrido pela bioenergia. Tal como a eletricidade não pode ser observada, apenas a sua manifestação é perceptível, assim acontece com as nāḍīs e com o Prāna.
Mas, à medida que nos tornamos mais conscientes, podemos sentir esta energia e perceber como se move.

Das milhares de nāḍīs existentes, as três principais são īḍā, piṅgalā e sushumnā. Estas três nāḍīs originam-se no chakra da raiz ou Mūlādhāra chakra, que se situa na base da coluna.
  • A nāḍī piṅgalā é a nāḍī solar, inicia-se no mūlādhāra chakra e sobe ao longo da coluna vertebral até chegar à narina direita. Transporta o prāna de polaridade positiva. Símbolo do sol, do calor e da atividade, está relacionada com a força ascendente e com o lado masculino, com a força física e psíquica e com os processos de absorção do corpo físico e energético. Coordena o lado direito do corpo mas ativa o lado esquerdo do cérebro responsável pela lógica e pelo pensamento analítico. A respiração pela nāḍī solar produz calor, atividade, ação e energia e desenvolve o pensamento lógico.
  • A nāḍī īḍā, é a nāḍī lunar, inicia-se no mūlādhāra chakra e sobe ao longo da coluna vertebral até chegar à narina esquerda. Transporta o prāna de polaridade negativa, apāna. Tem como função controlar todos os processos de eliminação ou excreção no corpo humano, tanto ao nível físico como ao nível mental e energético. Simbolizando a lua, está mais ligada a atividades introspectivas e criativas, ao lado feminino. Coordena o lado esquerdo do corpo, mas ativa o lado direito do cérebro. A respiração pela nāḍī lunar é refrescante e calmante, induz ao recolhimento dos sentidos e desenvolve a intuição e a criatividade.
A ciência que se aprofunda no estudo do prāna chama-se Swara Yoga e é bastante complexa.
  • Quando a nossa narina esquerda está dominante, ou seja, quando o ar flui melhor por esta narina, em princípio, o lado direito do cérebro (que corresponde às atividades de introspecção, criatividade e intuição) está mais ativo. 
  • Quando, pelo contrário, temos a nossa narina direita dominante, significa que o lado esquerdo do cérebro, está mais ativo. A lógica e o pensamento racional sobrepõem-se.
  • Quando há desequilíbrios na nāḍī īḍā, sentimos frio, baixa capacidade mental, tristeza ou depressão, a digestão pesada e demorada, etc.
  • Quando, pelo contrário, há desequilíbrios na nāḍī piṅgalā, sentimos calor, temperamento explosivo, muito apetite, alergias, etc.
īḍā e piṅgalā representam a dualidade da existência. Essa dualidade é tradicionalmente personificada na cultura hindu como Śiva e Śakti, o masculino e o feminino. É com base nesta dualidade que a vida é criada.

No entanto, sushumnā, a nāḍī que se situa no centro da coluna, não tem atributos, polaridade, ou qualidades, é como um espaço vazio. 

Uma vez que o prāna entra em sushumnā, a energia flui de forma retilínea, conduzindo ao despertar da kuṇḍalinī, a supraconsciência.

A kuṇḍalinī, é descrita simbolicamente como uma serpente de fogo, que permanece adormecida e enroscada na base da coluna vertebral, no chakra da raiz ou mūlādhāra chakra, e simboliza esse despertar da consciência. 

É interessante perceber que o canal (sushumnā), que representa o caminho de despertar da consciência (kuṇḍalinī) é um canal sem atributos, sem polaridades.

Será que o corpo subtil no homem, é diferente do da mulher? Como mulher que sou, não conheço profundamente nem o meu próprio corpo, nem a minha mente e nem a minha própria energia. Mas não será a energia toda a mesma, apenas com diferentes formas de manifestação?
Se num estado de consciência superior, não existe polaridade, nem separação, se não há opostos para a consciência suprema, as técnicas que se destinam somente a homens ou a mulheres não serão uma perca de tempo?

Recordando que o objetivo o yoga é conduzir o praticante ao autoconhecimento, e que o autoconhecimento conduz a mokṣa, liberdade, e que a liberdade é a não identificação com o corpo, com o ego, com a individualidade. Será então que faz sentido estimular a diferença?

Enquanto seres vivos somos diferentes biologicamente, mas energeticamente seremos?

Por fim, todas as técnicas de yoga são importantes e têm os seus objetivos, mas não têm valor algum se não tiverem na sua base um conjunto de valores cultivados. 

Faz sentido investir mais energia na colocação das mãos ou dos calcanhares do que a cultivar os princípios éticos do yoga?

Sem ética e valores elevados, como o Amor ( que escrevo sempre com letra grande); sem o respeito pela vida, por nós mesmos e pelo próximo; sem a prática constante de meditação e a observação atenta sobre nós, não há  padmāsana, nem mantra, nem prāṇāyāma, nem polaridade que nos valha. 😁😉

Nota - A Kuṇḍalinī, os chakras, as nāḍīs, o prāṇa, etc, representam simbolicamente o potencial energético do ser humano, dos seres vivos, da natureza. 

* chakra corretamente é grafado sem o h, cakra. 

Boas práticas, com consciência! 💙

Esta informação foi inspirada nos ensinamentos dos professores, Pedro Kupfer, João Paulo Dias, Ricardo Gil, Mestre DeRose e também pesquisas pessoais.










Comentários

  1. Obrigada Sofia por mais uma passagem da sua aprendizagem e conhecimento.
    E concordo consigo: só ao escutarmos o nosso coração, ao seguirmos a nossa intuição e a agir com Amor e Empatia caminhamos para o autoconhecimento. Obrigada, até breve :)

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