Não consigo descontrair durante o relaxamento do Yoga ou durante o yoganidrā
Não consigo descontrair durante o relaxamento do Yoga ou durante o yoganidrā
Esta semana, uma aluna querida e interessada, desabafou no final da aula, dizendo que não conseguia descontrair durante o yoganidrā. Os pensamentos e os afazeres do dia a dia surgem-lhe nesta altura da aula, mesmo após a prática de āsana, prāṇāyāma e toda a prática de yoga que antecede a descontração.
Porque isto acontece e o que fazer?
Cada caso é um caso e os motivos podem ser muitos. Deixo mais abaixo algumas possibilidades.
Mas antes, recorde o que é o yoganidrā e quais são os seus benefícios. Carregue no link seguinte:
https://yoga-sadhana-pt.blogspot.com/2022/01/o-yoganidra-descontracao-do-yoga.html
Então, o que pode estar a causar esta incapacidade de descontrair?
É muito comum, um aluno iniciado sentir alguma dificuldade em permanecer deitado em śāvāsana, em decúbito dorsal, e conseguir respeitar a proposta de relaxar e permanecer imóvel.
É natural experimentar sensações que interferem diretamente com a descontração, como pensamentos que surgem sobre a rotina e os afazeres, vontade de mudar de posição, de se coçar, dificuldade em manter os olhos fechados ou mesmo uma irresistível vontade de se levantar.
O sono também é uma dificuldade sentida. Quem nunca passou pelas brasas durante o yoganidrā?
Se é aluno iniciante, não se preocupe, com o tempo irá certamente alcançar estados mais profundos de descontração. A prática e o tempo resolverão tudo. 💚
A prática de yoga, com todos os seus angas ( as partes que a constituem) vai ajudando progressivamente a acalmar e focar a mente, mas se vem diretamente do seu trabalho, em transportes públicos e com pressa, se teve um dia muito agitado ou se está a passar por um período exigente e de stress, pode não conseguir relaxar, mesmo passando por toda a prática que antecede o yoganidrā e a meditação.
Neste caso, as práticas mais intensas fisicamente ou as práticas em vinyāsa, práticas mais fluidas e sempre com a respiração coordenada com o movimento, poderão ajudar, pois o aluno fica sem tempo para pensar, de tão focado que está em cada movimento da sequência, chegando ao final da aula mais cansado fisicamente mas mais sereno.
Algumas pessoas são fisicamente mais ativas que outras e necessitam de “gastar” a energia excessiva que têm para se sentirem bem. Fazer desporto, caminhadas, paralelamente ao yoga e à meditação, pode ajudar. Estas pessoas podem também experimentar mais facilidade em concentrarem-se durante a prática de āsana, as posturas psicofísicas do yoga, que propriamente durante a meditação. Se é esse o seu caso, não lhe dê muita importância, simplesmente aproveite a sua facilidade. Todos somos diferentes e há várias formas de chegar ao mesmo objetivo.
Reservar algum tempo para uma atividade criativa ou um passatempo de que se goste e onde se possa canalizar a energia e a atenção, também pode ser uma mais valia.
O desconforto físico é também uma das principais causas para a sensação de não se conseguir descontrair. Sentir frio, sentir uma dor incomodativa na zona lombar, no pescoço ou num ombro, pode ser motivo para ficar tenso.
Agasalhe-se antes do seu yoganidrā, coloque uma mantinha sobre o corpo, vista um casaco ou um par de meias.
Procure uma posição confortável e faça todos os ajustes para que possa sentir-se bem. A proposta do professor, de se deitar em decúbito dorsal, com as pernas afastadas e as palmas das mãos voltadas para cima, pode não ser a proposta ideal para o seu corpo.
Se uma grávida se pode deitar de lado para descontrair, alguém com uma lesão no ombro ou com uma dor no pescoço, também pode e deve ajustar a sua posição. Usar uma almofada debaixo dos joelhos pode ajudar a diminuir a tensão na zona lombar e descontrair melhor. Uma almofada mais baixa ou uma manta dobrada por debaixo da cervical ajuda a aliviar tensões no pescoço e sensação de tonturas. Elevar as pernas, alivia a sensação de peso que por vezes é tão desagradável. Peça ajuda ao seu professor explicando onde sente desconforto, para que este o possa aconselhar.
Se o ambiente à sua volta não for o mais indicado, se houver muito calor ou frio, muito ruído ou luzes fortes, a descontração poderá nunca ser alcançada. Um yoganidrā no jardim, por exemplo, por mais agradável que seja, pode não ser relaxante devido à luz solar ou à sensação de ter insetos a pousar e caminhar sobre o corpo.
Se o que o incomoda é o barulho exterior, mentalize a seguinte afirmação, da autoria do Mestre DeRose, que tantas vezes escutei nas práticas de swásthya yôga:
“ Barulhos externos não me perturbam e ainda ajudam a aprofundar o relaxamento”! ( Mestre DeRose)
Se algo o incomoda, fale com o seu professor para que essas situações possam ser resolvidas. 💙
Comer ou beber antes da prática de yoga, pode afetar toda a prática e claro, também o yoganidrā. Nas três horas que antecedem a aula de yoga não deveríamos comer nem beber, principalmente os alimentos pesados e processados.
Alimentos estimulantes como o café, alguns chás, cebola e alho, gengibre aumentam o nosso metabolismo e alguns até podem ser saudáveis, mas antes da prática criam agitação e afetam o equilíbrio, a capacidade de concentração e o relaxamento. 💜
Alguns alunos podem ter alguns receios pelo facto de não conhecerem a prática. O medo de que o yoganidrā seja uma espécie de hipnose acontece com frequência.
O yoganidrā não é uma hipnose. Ambos têm algumas características em comum, pois existe alguém que guia e que conduz a um relaxamento físico e emocional profundo, mas são técnicas distintas.
No yoganidrā a mente consciente está sempre ativa e o aluno pode assumir o controle sempre que quiser. Na hipnose quem controla o paciente e explora o seu subconsciente é o terapeuta. Ambas as técnicas podem ser vantajosas, se dirigidas por profissionais competentes, com valores e ética, mas as duas têm propostas diferentes.
Por exemplo, para proteger o aluno durante o yoganidrā, deve existir sempre uma frase de segurança, logo ao iniciar.
Essa frase convida a uma descontração profunda, mas com a indicação de que o aluno deve deixar a mente lúcida e acordada, para poder filtrar o que for dito e poder igualmente escolher para si, apenas aquilo que desejar. 💛
O yoganidrā é chamado "o sono do yoga". Com ele, pretende atingir o estado de sono consciente. Mas o receio, às vezes inconsciente, de se entregar, de confiar na experiência do relaxamento, de deixar fluir e de não estar no controle, pode impedir a descontração. Muitas vezes a mente cria artimanhas para não permitir que a descontração aconteça.
Se sentir algum tipo de ansiedade ou agitação assim que se deita em śāvāsana, se um rol de pensamentos começa a fluir nesta altura, observe-se.
Recordo-me que no início da minha prática de yoga, as lágrimas escorriam-me durante o yoganidrā e eu não sabia a razão. Essa sensação era desconcertante, mas não há nada que o tempo e a atenção em si mesmo/a não resolvam. Episódios semelhantes devem-se, muitas vezes, a emoções que são desbloqueadas. Isto pode acontecer devido a uma palavra dita na hora certa, ao tom de voz, à música, etc, em conjunto com o estado de descontração profundo.
Não lute, apenas observe os seus pensamentos e sensações, torne-se um observador desinteressado. Não tente racionalizar nada, não crie identificação. Com o tempo, a mudança irá surgir.
Contudo, se sentir necessidade de se levantar ou interromper o exercício, é sempre livre de o fazer. 💛
Quando iniciamos a prática de yoga não estamos conscientes de muitas sensações físicas, dos pensamentos que surgem e das emoções. Com o tempo, ficamos mais atentos e conscientes e começamos a aperceber-nos da panóplia de pensamentos e sensações que guardamos em nós.
Recordo, que cerca de um ano após iniciar a minha prática regular de yoga, me dirigi à minha Professora, professora Catarina Candeias, dizendo que cada vez me sentia mais desconcentrada e com mais dificuldade na meditação. Ele gentilmente me esclareceu, que esse podia ser um sinal de evolução na prática. Os pensamentos sempre lá estiveram, mas nós é que não estamos conscientes deles.
Se já tem algum tempo de prática e só agora sente essa dificuldade de forma intensa, pode ser apenas o seu nível de consciência que ampliou. Continue a prática com a certeza que tudo tem o seu tempo!💙
Com o tempo e a prática regular de yoga e meditação, a quantidade de pensamentos a fluir vai diminuindo. O segredo está em nós, basta praticar, mesmo que inicialmente pareça que não está a surtir efeito absolutamente nenhum, persista!
Boas práticas, com consciência! 🙏
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