O Pensamento mágico é uma mentira

 O "Pensamento mágico" é uma falácia

Na passada semana, uma querida aluna ligou-me pedindo orientação para obter um mantra que pudesse trazer felicidade à sua vida. Segundo ela, a história da sua família estava recheada de tristeza, desgostos sucessivos e ela pretendia mudar essa vibração.

Tivemos uma longa conversa, que julgo não ter sido totalmente esclarecedora e pedi-lhe permissão para escrever sobre o assunto.

Respondi que não existem mantras para trazer felicidade, prosperidade, amor, sucesso ou qualquer outra coisas que desejemos. Ficou em silêncio, julgo que meio desiludida.

Se procurarem na internet mantras para obter prosperidade, paz, amor, ou para afastar todos os males, garanto que vão encontrar. A variedade é muita e essa foi uma das razões pelas quais essa aluna me contactou. Esta é uma forma de algumas pessoas mal intencionadas enganarem e ganharem visibilidade, poder ou dinheiro à custa da vulnerabilidade de outros. 

Para que serve um mantra?

A palavra mantra significa em sânscrito “instrumento para a mente", man significa pensamento ou mente e  tra instrumento. 

O mantra serve para disciplinar a atividade mental consciente. Ajuda também a ganhar maior capacidade e controle respiratório e a serenar os pensamentos e emoções, auxiliando o praticante a atingir mais profundidade nas práticas de meditação. Resumindo o objetivo do mantra é fazer uma limpeza da mente e ser um foco para as práticas meditativas. Quando os mantras transmitem uma mensagem, podem servir também para ajudar o praticante a assimilar os ensinamentos que transmitem.

"Na tradição hindu, os mantras são chamados Śruti, revelação. Isso significa que esses sons não foram criados por um autor humano, mas percebidos em estado de meditação pelos sábios da antiguidade, chamados ṛṣis. Esses sons descrevem as diferentes revelações que estes sábios tiveram, e servem como indicadores para orientar os humanos em direção ao autoconhecimento. Por exemplo, os mahāvakyas, as grandes afirmações da tradição dizem: aham Brahma’smi, “Sou a Consciência Ilimitada”, tat tvam asi, “tu és Esse (Ilimitado)” ou ayam Ātma Brahman, “Esta individualidade é o Ilimitado”" Professor Pedro Kupfer

O mantra pode ser  repetido verbalmente ou mentalmente e pode ser vocalizado por qualquer pessoa, independentemente das suas crenças, ou religião. Lembre-se, que o mantra é apenas um instrumento para tornar a mente mais meditativa, esse é objetivo. 

Pode acontecer que um mantra desperte em nós alguma emoção, um sentimento de devoção, que nos leve a um relaxamento profundo, pode ser que nos acalme e ajude a reduzir o stress, mas o objetivo é a meditação.

Pensar num mantra como uma forma de obter algo é uma atitude imatura, que muitos podem cometer principalmente nos momentos em que se sentem mais frágeis. É também uma forma de superstição e de pensamento mágico, uma mentira.

É comum ouvir dizer que os mantras a Gaṇeśa, são indicados para a superação dos obstáculos. Estes obstáculos não são os obstáculos reais, ou seja, o mantra não evita que possamos chumbar num exame, que ocorra um despedimento, uma doença, etc. O mantra a Gaṇeśa é como algo que nos recorda da nossa própria capacidade de superar obstáculos interiores, de nos superarmos.

Śiva representa a destruição, não no sentido pejorativo, mas antes associado à renovação. Logo, um mantra a Śiva é como um indicador, um revelador da nossa capacidade de mudar algo ou de transformar.

Escutei do  professor Pedro Kupfer uma parábola interessante, a parábola do corvo e do coqueiro. Esta parábola pertence ao Nyāya Sūtra “Sūtras sobre a Lógica”, um texto atribuído ao sábio Akṣapāda Gautama e que fala do momento em que um corvo pousa numa palmeira, carregada de cocos e um dos cocos mais maduros cai, nesse preciso momento. Embora os dois factos possam estar relacionados, a verdade é que também podem não estar relacionados. O momento em que o coco cai pode não estar de forma nenhuma relacionado com a presença do corvo, mas normalmente tendemos a fazer estas relações na nossa vida. 

Use o mantra para limpar a mente, para refletir sobre as verdades que transmite, para se concentrar e meditar.

Se quer passar no exame, no mínimo estude; se quer emagrecer mude hábitos de vida e alimentação; se quer um amor, ame-se em primeiro lugar e se deseja ser feliz, perceba que a infelicidade, a tristeza fazem parte da vida e têm a sua importância, não fuja delas, observe a sua tristeza, ela trás uma mensagem para si, aprenda com ela e fortaleça-se nela. 

Se quer sentir-se mais feliz, aprenda a valorizar os pequenos prazeres da vida, concentre-se em tudo de bom que certamente acontece consigo a cada dia, rodeia-se de pessoas positivas e amorosas, aprenda a gostar da sua própria companhia, mantenha um contacto regular com a natureza, apanhe sol, alimente-se bem, mude os seus hábitos de sono, tire um momento para si todos os dias e sobretudo comece a trilhar a senda do autoconhecimento. 

O yoga propõe esse caminho, o caminho do autoconhecimento.

Seria mais fácil e rápido se a nossa felicidade dependesse simplesmente da repetição de um mantra, se assim fosse, todos nos sentiríamos felizes. Pelo contrário, o caminho do autoconhecimento oferece-nos, um caminho mais longo, onde a verdade, a profundidade e a alegria de mergulhar em nós vale todo o investimento.

Boas práticas, com consciência! 💙




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